Silvana Leão
De Londrina
No início do mês de setembro, o mundo assistiu aos horrores provocados pelo sentimento de vingança do governo da Indonésia contra o povo do Timor Leste, que em prebiscito realizado em 30 de agosto reivindicou sua liberdade. Foram três semanas de devastação, que só não tiveram consequências ainda piores pela rápida intervenção da Organização das Nações Unidas (ONU). Passado o momento mais crítico do massacre, porém, poucas notícias chegam ao outro lado do mundo sobre os problemas vividos pelo povo que agora tem a dura missão de reconstruir seu país.
Esta dificuldade em obter informações da real situação na ilha localizada no sudeste da Ásia e o desejo de ajudar levaram o brasileiro José Roberto Martins Prado, de 36 anos, a viajar para Timor Leste no mês passado. Entre os dias 9 e 12 de novembro, Prado, que é pastor da Igreja Batista e atualmente exerce a função de diretor-executivo de uma organização não-governamental evangélica, a Missão para o Interior da África (Miaf), esteve na ex-colônia portuguesa.
‘‘Foi uma experiência marcante e até difícil de expressar’’, diz o missionário, que já esteve em alguns países africanos que enfrentaram a guerra no passado e ainda hoje sofrem as consequências. Ele lembra, porém, que o caso de Timor Leste é diferente por ser muito recente. ‘‘Percebemos, em conversas com as pessoas, que a angústia de ter perdido tudo e não ter mais onde morar é muito grande.’’
Prado lembra que seu primeiro choque foi quanto à presença maciça dos militares da ONU (da Força Internacional de Paz) no país, principalmente na capital, Tíli. ‘‘Eles (os militares) estão em todo lugar, nas ruas, no aeroporto. E, por segurança, os visitantes precisam deles para se locomover.’’
O pastor diz que as necessidades mais emergenciais dos timorenses hoje são alimento e ajuda médica. Há aproximadamente 150 mil pessoas nos campos de refugiados, vivendo da maneira mais precária possível. A cada dez casas, sete foram destruídas pelas milícias da Indonésia. De oito a dez crianças morrem diariamente de fome.
Em sua visita, Prado e outra missionária de São Paulo levaram uma quantia em dinheiro – doada por igrejas e empresários interessados em ajudar o país –, que foi utilizada pelas Nações Unidas para compra de leite em pó. Ele conta que no mês passado a população só estava recebendo arroz, óleo e sabão. Pela improvisação dos campos de refugiados – vários deles construídos em quadras esportivas – o perigo de epidemias como a tuberculose é constante.
Apesar da situação ainda caótica, o missionário acredita que os timorenses podem esperar por dias melhores daqui para a frente. Libertado da Indonésia, o país tem em Alexandre Xanana Gusmão – principal líder da resistência no Timor – seu provável presidente. ‘‘Abdurrahmam Wahid, eleito presidente da Indonésia em outubro, também está buscando o diálogo. A ação da ONU agora é no sentido de pôr um ponto final ao conflito para investir na reconstrução do país’’, explica José Roberto Prado.
Uma das grandes dificuldades encontradas para a tão sonhada recuperação do país é a sua localização. O missionário lembra que a maior parte dos alimentos que entra hoje na ilha é através da vizinha Austrália ou da própria Indonésia. O transporte está bastante dificultado, já que todos os vôos comerciais estão suspensos. Só os aviões da ONU e do exército australiano cumprem esta função atualmente. Prado, que reside em Londrina, fez uma viagem de 40 horas para chegar ao país.
Tanta dificuldade, porém, não o desanima. Em fevereiro ele deverá voltar à ilha para levar mais ajuda ao povo timorense. A missão da qual faz parte lançou a campanha ‘‘SOS Timor Leste’’, que pretende levantar a maior quantia de dinheiro possível, através de doações, para remeter às ONGs que atuam na região para compra de alimentos. Em um segundo momento, a campanha vai recrutar equipes de profissionais voluntários para trabalhar no país durante um determinado período nas áreas de saúde, educação e construção civil.
Para fevereiro está agendada a viagem da primeira equipe, e os profissionais já começaram a ser cadastrados. A segunda viagem deverá acontecer no mês de junho. Todas as ações, esclarece o missionário, são feitas através da ONU. Além de coordenar as equipes, Prado terá o papel de pregar o evangelho e levar palavras de reconciliação aos timorenses.
‘‘A expectativa do povo e da comunidade internacional em torno da ajuda brasileira é muito grande. Os timorenses consideram o Brasil uma espécie de ‘irmão mais velho’, por também ter sido colonizado pelos portugueses’’, explica, lembrando que os moradores locais mantiveram, durante os 24 anos de ocupação dos indonésios, a língua portuguesa como forma de resistência.
Serviço: os interessados em colaborar com a campanha ‘‘SOS Timor Leste’’ podem em entrar em contato com a Miaf pelos telefones (43) 328-7056 e 338-6429.

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