Passeio de história e cultura
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sábado, 13 de junho de 2009
Flora Guedes<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Se até nos pés pouco se repara, mais desfavorecido ainda ao olho humano é o que está abaixo dos membros inferiores. Onde pisamos. Até porque, geralmente, andamos com pressa, com objetivo, focando o destino. E não o passeio. Mas não custa fazer uma pausa e observar por onde anda, quando estiver transitando pelo Calçadão da Rua XV de Novembro e praças da Região Central de Curitiba. Vai se admirar com a beleza cultural e artística das calçadas em petit pavet ou mosaico português que foi reduzido, praticamente, à região de interesse histórico da cidade.
A sugestão é oportuna. Observando as obras urbanas mais recentes em Curitiba, fica claro o novo direcionamento para construção de calçadas. A Praça Tiradentes foi revitalizada e o antigo piso em petit pavet totalmente retirado. No lugar se encontram blocos de concreto pré-moldados. A revitalização do Paço Municipal foi uma medida importante na conservação do patrimônio histórico, mas não dá para desprezar o charme e beleza artística que a Praça Generoso Marques perdeu depois que ''descascaram'' o petit pavet geométrico do Calçadão, só restando uma faixa de lembrança no entorno do Paço.
''Dentro do Ippuc (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba) há um consenso em preservar o que já existe a todo custo. Somos favoráveis ao petit pavet, mas existe uma pressão para não se usar mais. O mosaico português está em desuso, virou o bicho-papão e foi enquadrado como um piso perigoso. Estamos em busca de alternativas'', contextualiza o arquiteto Mauro Magnabosco, que coordena os projetos de revitalização do Centro.
De acordo com Rubens Leonardi, do Conselho Municipal das Pessoas com Deficiência, a Associação Brasileira de Normas Técnicas recomenda que as calçadas devem ganhar material antiderrapante e ter superfície plana. ''O grande problema do petit pavet é a manutenção e acaba prejudicando a mobilidade dos cadeirantes e deficientes visuais'', explica. ''O desenho artístico não precisa ser feito no chão. A calçada deve ser executada pensando no seu uso e nas pessoas que tem mais dificuldades de locomoção'', conclui.
''Ele é criticado como um piso escorregadio e que não é plano. Mas bem executado e com boa manutenção, não apresenta esses problemas. Já fizemos adequações em algumas calçadas colocando faixas de circulação que permitem a acessibilidade de cadeirantes e implantamos pista tátil'', defende Magnabosco, informando que o petit pavet é uma herança portuguesa, bastante aplicado na cidade entre 1950 e 1990, como uma forma de expressão artística. Restam ainda 25 quilômetros de calçadas em mosaico português em Curitiba.
Correntes artísticas
''O petit pavet faz referência aos movimentos culturais e conta a história das épocas. Com pedrinhas brancas e pretas e, mais raro, vermelhas, essa técnica permite aplicar desenhos com maior definição, como um bordado'', explica Magnabosco. ''A calçada representa o acabamento de um projeto. É um capricho do arquiteto, que planeja esses desenhos para quebrar a monotonia e possibilitar um passeio visual'', completa ele, acrescentando que, pelo menos, o petit pavet da Rua XV de Novembro tem permanência garantida porque o Calçadão é tombado como patrimônio estadual.
Lá estão gravadas rosáceas de pinhão desenhadas pelo pintor Lange de Morretes, durante o Movimento Paranista, no final da década de 1920, como registra o livro ''Calçadas de Curitiba - Preservar é Preciso'', da arquiteta Lúcia Torres de Moraes Vasconcelos, publicado em 2006. A bela Araucária angustifolia estilizada também pelas mãos de Morretes se repete em praças e ruas, além de motivos indígenas largamente divulgados pelos paranistas.
Os passeios ainda retratam correntes artísticas mundiais como as linhas rebuscadas da Art Nouveau e o traço mais simples da Art Déco, que se baseia nas formas geométricas. As calçadas curitibanas ganharam as belezas das ondas do mar - famosas no Rio de Janeiro, mas que, na verdade, foram criadas em Portugal - e desenhos elaborados por arquitetos da terra, como Abrão Assad, que desenhou pombos-correio para o mosaico português em frente à antiga sede dos Correios, e Osvaldo Navarro que elaborou figuras inspiradas no caleidoscópio para a Praça Genoroso Marques.
''Há essa tendência de querer destruir as coisas do passado. Você vai em Lisboa (Portugal) e lá o petit pavet é usado há séculos. Ninguém reclama. Lógico precisa sempre de boa manutenção, como qualquer calçada. Porém, aqui há também uma pressão econômica e política para se usar o paver (piso pré-fabricado)'', critica Navarro.


