Pensar, repensar, pesquisar, consultar dicionários e quebrar a cabeça até encontrar a solução. Essa é a rotina dos aficcionados por palavras cruzadas. O passatempo originou-se no Egito antigo nos primórdios da civilização e foi reiventado em 1913, em Nova Iorque pelo jornalista Arthur Wynne do The New York Word.
No Brasil, a primeira publicação das palavras cruzadas aconteceu em 1925 no jornal carioca ''A Noite'' e ganhou força a partir de 1948. De lá para cá se tornou sucesso em todo o mundo, seja entre estudantes, donas de casa ou profissionais de várias áreas.
O funcionário público aposentado Zildo Baccarin, 70, pratica o hábito há dois anos para exercitar o conhecimento e aprimorar a cultura preenchendo livros e livros de palavras cruzadas.''Além do lazer que proporcionam, as palavras cruzadas ampliam o meu conhecimento e vocabulário'', declara Baccarin.
Já Haydée Lima de Carvalho, 84, professora aposentada, não passa um único dia sem preencher as cruzadas. Ela confessa que não consegue dormir sem a prática e faz do passatempo um estilo de vida. Seguido a risca com disciplina e muito prazer. Ela desvenda os enigmas de palavras desde 1935, ano em que lecionava no primário do grupo escolar Nilo Moraes Pinheiro, em Minas Gerais, e usava a diversão como coisa séria. ''Toda semana eu tirava um dia para recreação com os alunos e dedicava esse tempo ao ensino das palavras cruzadas, do desvendar das charadas. De lá para cá, não parei mais. Fico doente quando acaba o livro das cruzadas e ninguém pode comprar para mim. Não durmo enquanto não faço'', revela a professora.
Além de solucinar a cruzada de três jornais diários, mais a das revistas, Haydée se dedica à família, borda, cozinha, cuida da casa, lê muito e carrega o passatempo por onde vai. ''Não deixo de levar, sinto muita falta, é exercício para minha mente'', declara.
A maior dificuldade que ela encontra para resolver os enigmas são as palavras em outro idioma. ''O que mais me atrapalha é que não sei inglês, só francês. Na época que estudei era a língua que ensinavam, quando pedem a tradução e o nome dos artistas americanos me atrapalho toda, fora isso tento decifrar os enigmas. Na última hipótese olho a resposta, quando olho não copio na hora, leio muitas outras páginas antes de escrever a resposta que vi, faço a cabeça trabalhar'', sorri.
Ela é casada há 63 anos com o agricultor José Moura de Carvalho, 85, mãe de sete filhos. Tem 19 netos e 6 bisnetos e incentiva toda família à leitura e ao aprendizado de novas palavras com as cruzadinhas e recomenda a técnica às crianças.'' Acho que as crianças devem começar a fazer as palavras cruzadas cedo, isso incentiva a leitura e o vocabulário, quando estiverem na fase de fazer faculdade terão um ótimo embasamento'', conclui.

mockup