Passamos a vida olhando o céu
Passamos a vida olhando o
céu
Curitiba
Mauro FrassonDona Luiza: Guardar
forças para reconstruir o que a chuva
leva
A lembrança da grande enchente de 1983, que deixou
mais de 30 mil desabrigados em União da Vitória, faz dona Luíza franzir ainda
mais o rosto marcado pelo tempo. Seus olhos se apertam, as mãos se agitam
tentando mostrar o tamanho do estrago deixado pelas águas. A
enchente traz tanto sofrimento, minha filha, que aqui a gente passa a vida
olhando para o céu com medo da chuva, diz Luiza Rodrigues,
de 76 anos. Desde que ouviu notícias sobre o El Niño, ela voltou a incluir em
suas preces a ajuda divina. A única coisa que podemos fazer é
pedir que Deus não mande chuvas tão fortes nesse tal de ninho (sic), diz.
Luiza foi uma das primeiras
moradoras de uma área de alto risco, o bairro Navegantes. Desde 1940, ela
vive com a família em uma casa de quatro cômodos a menos de 50 metros da
margem do Rio Iguaçu. Já perdeu a conta de quantas vezes deixou sua casa de
barco, levando cobertores, roupas, panelas.
A família de Luiza é mais uma
das que não podem escolher outro lugar para morar. O jeito é
guardar forças para poder reconstruir o que a chuva leva, diz.
Mesmo sem acreditar nas consequências ameaçadoras do El Niño, Luiza já
está guardando madeira e alguns objetos na casa de parentes.
Ali perto, no espaço deixado
pela antiga residência, arrastada na enchente de 1983, a família Neves está
erguendo a esperança de uma solução definitiva contra as inundações: uma
casa de alvenaria, ao estilo palafita, com quatro metros de altura.
Por enquanto, Teresinha Neves,
o marido e os dois filhos pequenos estão abrigados em uma casa improvisada
nos fundos da futura fortaleza. Na época da última cheia, em
1992, a família teve de deixar o local às pressas, sem tempo de recolher
qualquer objeto. Ficamos só com a nossa vida,
conta Teresinha.
Foi graças à altura de outra casa
que a família de Alexandro Graupmann, 15 anos, conseguiu se salvar das
enchentes. Em 1983, a casa foi coberta pela água até a metade. Na parte
superior, os Graupmann guardaram eletrodomésticos, alguns móveis e
alimentos suficientes para as duas semanas que permaneceram ilhados. Hoje, a
parte inferior da casa, de madeira, está totalmente apodrecida, abrigando
apenas alguns objetos. Entre eles, um indispensável bote inflável.





