O passado viajou pelos trilhos da memória. Na primeira classe dessa viagem ao futuro - com passagem paga pela lembrança dos pioneiros e a história oficial -os personagens da saga da construção da primeira Estação Ferroviária de Londrina desembarcam de novo na cidade, depois de atravesserem com a máquina de ferro a ponte sobre o Rio Tibagi.
Entre os viajantes que chegam ao presente para ajudar a narrar essa história, relembrada hoje, data em que se comemora os 70 da chegada da primeira composição ferroviária a Londrina, está João Menezes, diretor-interino do primeiro jornal londrinense, o Paraná-Norte.
Ele assinou a edição de 4 de agosto de 1935, que trazia a notícia sobre a inauguração: ''...o trem especial entrou na estação local. Indizível a alegria contaminadora em todos os semblantes. Sorrisos das senhoritas se confundiam com os vivas e palmas de todos os que se achavam na 'gare'...''
Como se abríssemos o bloco de anotações de Menezes, vamos presenciar o desembarque da comitiva no dia 28 de julho de 1935, às 15 horas. Relatos que fazem parte da pesquisa sobre a chegada do trem a Londrina realizada pela assessora de imprensa do Museu Histórico Padre Carlos Weiss, Barbara Daher Belinati, e a estagiária de jornalismo Gisele Fabbris.
Primeiramente, desce da Maria Fumaça o governador Manoel Ribas e os diretores da Companhia Ferroviária e de Terras.
A marcha tocada para receber as personalidades, entre brindes de champagne, nos levará ao encontro do Lorde Lovat, o 16º representante de uma dinastia aristocrática britânica - protagonista da chegada do trem ao Norte do Paraná.
Apresentados a Lovat, cujo nome era Simon Joseph Fraser, teremos à nossa frente o homem que em 1894 foi oficial do exército inglês, servindo no regimento ''The Life Guards''. Ele comandou o batalhão de Caçadores e Guardas-Florestas da Escócia, durante a Guerra dos Boers, na África.
Atendendo aos apelos de toda boa história, que para ser empolgante precisa de heróis, Lovat combateu na I Guerra Mundial. À frente do batalhão escocês, ele chegou a ser ferido.
Com uma cultura elevada no mosteiro dos beneditinos, na Oratory School e Universidade de Oxford, Lovat desembarca no Brasil aos 51 anos, na condição de diretor da Sudan Cotton Plantations Syndicate e assessor para assuntos de agricultura e florestamento, integrando a missão chefiada pelo Lorde Montagu.
O trabalho das pesquisadoras abre um cenário à nossa frente. Nele, vemos Lovat andando, preocupado com a busca de informações sobre a agricultura e terras boas para o plantio de algodão na região.
Aos poucos, a gente parece ouvir o alarido dos colonizadores mineiros e paulistas - ofuscados pelo lustro da festejada colonização inglesa londrinense, mas que chegaram a Cambará no período de 1904 e 1908.
Esses colonizadores tiveram participação importante na fundação de Londrina e na chegada da trem. Apesar de terem sob os pés uma terra fértil, eles estavam preocupados com desenvolvimento da região, barrado pela dificuldade de acesso.
As pesquisadoras nos colocam no canto de um episódio para observar a trama da história para trazer o trem até Londrina.
Entre os fazendeiros do Norte Velho, o major Barboza Ferraz e Antônio Ribeiro dos Santos, queriam atrair o interesse dos investidores estrangeiros na Cia. Ferroviária São Paulo-Paraná.
Ao visitar a região, Lovat se encanta com a terra roxa e chega a oferecer a Ferraz 15 mil contos de réis pelas suas propriedades - uma fortuna para época, que o major recusou.
''...diante da recusa, Gastão de Mesquita chamava a atenção do visitante inglês para as férteis terras que o Governo do Paraná, através do presidente Caetano Munhoz da Rocha, oferecia à venda por preços baixos, decorrentes da inexistência de transportes na região e se a compra fosse seguida do prolongamento da estrada de ferro (...) a valorização das áreas adquiridas podia se tornar muito lucrativo o investimento...''
No vagão da história, ouvimos o som do telégrafo com a mensagem de Lovat ao gerente da Sudan Cotton Plantations Sindicaty, Arthur Hugh Miller Thomas, residente na África, marcando um encontro em Londres para discutirem o investimento de capital inglês no Brasil.
O advogado João Domingues Sampaio, um dos diretores da Cia. de Terras, é outro passageiro desse trem do passado rumo ao presente que aparece na pesquisa para ajudar a contar a história do trem.
''..ficou assentado que ao invés de aumentar o capital da Brazil Plantations, que seria oportunamente desativada, fosse fundada a Paraná Plantations Company, a fim de levantar fundos de maior vulto para grandes empreendimentos que se projetassem de início a compra de terras e as estradas de ferro e de rodagens...''
Não vamos arrastar essa história, como a velocidade da Maria Fumaça, mas paramos em 1926 para lembrar a construção da ferrovia até Cambará. Chegamos a 1928, quando a Cia. de Terras Norte do Paraná respondeu a um pedido de financiamento da Cia. Ferroviária São Paulo-Paraná, a com oferta de compra da maioria das ações, que pôs nos trilhos a locação final e extensão da estrada de ferro de Cambará em diante.
Numa curva da história está 1932. O tráfego é aberto entre aquela cidade e Jataizinho. Imigrantes começaram a chegar, como o português Ezequiel de Mello, que virou notícia do Paraná-Norte ao morrer aos 44 anos, num acidente de trabalho numa derrubada em Nova Dantzig (Cambé).
João Sampaio já tinha batizado ''Londrina, a filha de Londres'' e, em 1935, a primeira Estação Ferroviária de Londrina abre as portas para o desembarque dos primeiros passageiros.
A marcha tocada no dia da inauguração encobria a conversa de outros personagens que podemos imaginar ao lermos uma cópia da época do Paraná-Norte.
Eram pessoas que atendiam ao reclame da compra de ''pelles e couros'' em qualquer quantidade de caetetús, jaguatiricas, lontras e veados - animais facilmente encontrados na região.
Lampeão e seu bando espalhavam o medo pelo sertão. ''Um dos maiores flagellos das regiões nordestinas é o cangaço. Já a secca lhes causa prejuízos enormes, e de quando em vez ordas de bandidos saqueiam, matam, infelicitam lares, numa sede insaciável de fazer mal'', dá conta um artigo.
No pé da página do jornal uma boa notícia: ''Estando já preparado o leito da estrada de ferro no trecho Londrina-Nova Dantzig (Cambé), e collocados os dormentes foi começado no dia primeiro, do corrente, o serviço do avançamento...''
Os ventos do passado, que trouxeram a lembrança da Maria Fumaça, com os personagens em ternos de fino corte, amaçando o barro vermelho, também cortam Londrina em 1946, quando começou a construção da nova Estação Ferroviária, inaugurada em 1950.
Os ventos mudam e, em 1966, começam a soprar as idéias de mudança da ferrovia, que dividiu a cidade.
Durante a gestão de Dalton Paranaguá, o redemoinho com as propostas da variante ferroviária começou a se levantar, chegando até ao início da obra, concluída em outra gestão.
Finalmente, no dia 10 de março de 1981, o trem deixou de transportar passageiros.
Num último capítulo dessa história, Lorde Lovat morreu aos 62 anos, assistindo uma corrida de cavalos em Londres, em 1933. A Ditadura Vargas cassou a homenagem que recebeu no Brasil.
Sentado numa das janela da história e o trabalho de pesquisa, Lovat se acomoda num dos assentos da Maria Fumaça ao lado de outros passageiros dessa viagem, acenando para o presente que nunca imaginou.

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