Passado e presente na Estrada dos Pioneiros
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quinta-feira, 09 de dezembro de 2004
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
O canto do galo e o apito do trem já não são os únicos barulhos que se sobressaem na pequena chácara de Aparecida Flor Fernandes, 69 anos. A poucos metros, máquinas preparam o terreno que receberá uma área de lazer, extensão do condomínio vertical vizinho. A lavradora apenas observa; apesar de seu pedaço de terra ter diminuído muito com a modernidade, ela ainda se ocupa com a plantação de batata, mandioca e a criação de galinhas.
A arena do confronto entre o antigo e o novo é a Estrada dos Pioneiros, na Zona Leste de Londrina. Continuação da Avenida Celso Garcia Cid (Centro), a via atravessa os já consolidados jardins Montebelo e São Pedro, transforma-se em estrada de terra, corta uma extensa região de chácaras como a de dona Aparecida e desemboca em Ibiporã (14 km a leste de Londrina). Às suas margens vê-se dezenas de casas de alvenaria, prédios e pontos de ônibus, mas também a velha linha férrea e muitos terrenos de puro mato. Parece até que, para fazer jus ao próprio nome, a estrada tenta resistir ao tempo, oferecendo uma das raras chances de se ver o passado fora das antigas fotografias.
''Aqui em volta era tudo barro, cafezal, mato, um coloião só. Já havia malandros e eles se embrenhavam por aí, era um perigo para os meninos irem pra escola. E cobra, então? Eu tinha mais espaço para cultivar, plantava milho, abóbora, feijão. E ali para a frente tinha as casas onde a gente ia buscar jaboticaba'', diz Aparecida Flor, apontando para o local onde hoje estão os novíssimos residenciais construídos pela Cohab.
Morando há mais de 40 anos junto à Estrada dos Pioneiros, a lavradora ainda se surpreende ao constatar as mudanças. Ao mesmo tempo, manteve intacta sua casinha de madeira e o jeito de mulher do campo. ''Se ela for para o Centro, hoje, não vai reconhecer mais nada'', observa a filha Delmira Flor, 38, que trabalha como diarista e há poucos anos construiu sua própria casa, em alvenaria, bem ao lado de Aparecida. Enquanto a mãe afirma que ama o lugar onde vive, Delmira diz que a família permanece ali por falta de condições para adquirir um terreno em outro local.
O processo de urbanização nas redondezas já começou. Segundo o engenheiro civil Otávio Rubo Júnior, responsável pelas obras dos conjuntos residenciais Pioneiros e Lindóia, recém-concluídos pela Cohab, os novos empreendimentos já forçaram a instalação das redes telefônica, pluvial, de esgoto e de abastecimento de água na região, até então inexistentes. Juntos, os condomínios têm 350 apartamentos. ''Essas obras já começaram a alavancar o pequeno comércio local, coibiram a ação de invasores e criminosos que se aproveitavam do terreno vazio e duplicaram o valor imobiliário na vizinhança'', destaca.
Para o engenheiro, seria um desperdício impedir a urbanização de chegar à região. ''A entrada de uma cidade sempre demora mais para se desenvolver. Neste caso é uma pena, porque daqui ao Centro são apenas dez minutos'', conclui Rubo Júnior, de frente para uma vista privilegiada do mar de edifícios da Área Central e de costas para a velha estrada.


