Curitiba - Sentado em meio à sua produção de pepinos em conserva, no bairro Bigorrilho, em Curitiba, João Spodarik recorda do tempo em que era garoto em uma aldeia da Ucrânia e as festividades de Páscoa chegavam a durar até três dias (domingo, segunda e terça-feira). Naquele tempo, as moças dançavam em roda e os homens faziam brincadeiras. Ninguém pegava em ferramentas de trabalho, apenas aqueles que possuíam animais podiam alimentá-los. ''Khistos voskres'' (Cristo ressuscitou), ''essas palavras não saíam da boca das pessoas'', conta ele.
Hoje, aos 94 anos, 74 deles passados em solo brasileiro, Spodarik afirma que muitas das tradições trazidas pelos imigrantes estão se perdendo. ''A terra puxa'', avalia, referindo-se aos imigrantes da sua geração - a grande maioria já falecida - que mantinham as festas étnicas tradicionais. ''Antes tinha estrangeiro, agora é mais descendente'', observa. Dessa forma, a solução para manter viva a chama da tradição foi transferi-la para novas gerações, como a filha Iára Serathiuk, que, nesta época do ano, prepara os itens que compõem as cestas de alimentos que são abençoadas no sábado de Aleluia.
Diferentemente dos costumes brasileiros, que presenteiam as pessoas com cestas recheadas de ovos de chocolate, os povos eslavos têm o costume de produzir alimentos especiais para essa data, que são abençoados no sábado e consumidos no domingo de Páscoa.
Este ano, poloneses e ucranianos de Curitiba contam com uma programação especial. Ontem, houve a tradicional bênção dos alimentos, no Memorial Ucraniano, que fica no Parque Tingui, e, no Memorial da Imigração Polonesa, no Bosque João Paulo II. Depois de abençoadas, as cestas foram guardadas para serem consumidas apenas na manhã do domingo de Páscoa.
Na opinião de Nádia Lisizki de Abreu, descendente de poloneses e proprietária de uma casa de chá no Bosque João Paulo II, os curitibanos já assimilaram essas festas. Prova disso é que é cada vez maior o número de membros de outras etnias que levam cestas com alimentos diversos, como ovos de chocolate, para a bênção. Além da comida, é comum encontrar nessas cestas pelo menos uma pêssanka, ovo pintado com símbolos diversos, que representa a renovação da vida. Essa representação ganha um sentido ainda mais profundo quando ocorre na época da ressurreição de Jesus Cristo. Na opinião de Jorge Serathiuk, marido de Iára, cada peça é um ''telegrama'', que leva uma mensagem com votos de prosperidade, saúde, espiritualidade, entre outros.

mockup