A garotada que frequenta os shoppings não sabe que o Passeio Público tem o tamanho da Amazônia e esconde no fundo de seu lago verde e malcheiroso parte da história de cada curitibano. Ao cruzar seu imenso portal - cópia do portal do cemitério de cães de Paris -, os saudosos lembram que ali encerraram parte de sua vida. Que passava devagar, nos passeios de canoa ou pedalinho, no assédio às domésticas e às alunas do Colégio Estadual, na crueldade de dar chiclete aos micos, na aventura de cruzar a ponte pênsil e ir à ilha onde vivia o temível jacaré para roubar-lhe o sono com pedradas cortantes. Quem não tirou retrato montado no cavalinho do lambe-lambe, pose de herói dos filmes do Cine Curitiba?
Arquivo Casa da MemóriaEm 1966, o parque já tinha os animais, tornando-se programa obrigatório para famílias com criançasNo coração daquele mundão de floresta e animais temíveis ficava o famoso e famigerado Lá (parece que era sem acento) no Pasquale, onde sempre havia um público fiel e diversificado a toda hora. Durante a semana, de dia, era ponto de turistas e desempregados, soldadinhos de folga no quartel, uma ou outra rameira à caça de qualquer dos três tipos. Havia ainda, quase sempre, grupos de alunos do Estadual tomando seus primeiros goles, às vezes rabo-de-galo, que, diziam, fazia aflorar à memória aquelas inexplicáveis fórmulas de física.
À noite, mais estudantes do Estadual, moradores da CEU, jornalistas, políticos, intelectuais, comunistas com dor de dente. E era ali que o técnico Elba de Pádua Lima, o Tim, fiel aos copos, riscava no guardanapo e explicava a Luiz Augusto Xavier, Borba Filho e Vinícius Coelho como ganharia o Atletiba no domingo - e ganhava.
Mas era aos sábados, final da manhã/começo da tarde, que o Pasquale fervia e se tranformava no principal ponto de encontro de Curitiba, de famílias inteiras inclusive. Sua feijoada, antológica, era servida às toneladas, acompanhada de hectolitros de caipirinha, cerveja nem sempre gelada e muita conversa fiada. Intelectuais de esquerda saíam da clandestinidade para fazer seu aperitivo, tendo na mesa ao lado o então prefeito Jaime Lerner e sua trupe de contadores de piada. Artistas faziam questão de conhecer o lugar, aonde iam quase sempre ciceroneados pelo jornalista Aramis Millarch. Do lago, gordíssimas carpas emergiam à espera de pedaços de pão e restos de comida. Enquanto a classe operária sonhava com o paraíso, e ia ao Passeio aos domingos, a burguesia exibia seu doce charme todo sábado, nas mesas do Pasquale.
A cidade cresceu, mudou, ir ao Passeio passou a ser programa brega, o Pasquale - salvo por alguns religiosos frequentadores - foi abandonado às moscas e ao desleixo de seu antigo proprietário. O espaço ressurge agora com o nome Restaurante do Passeio, tocado pelos empresários do Festival de Teatro de Curitiba. Deve emplacar, se os ladrões e prostitutas forem cantar em outra freguesia e se o antigo charme do lugar for revigorado. Os caçadores de jacaré já estão ficando velhos, a estudantada ainda usa anel de doutor, os intelectuais se rendem aos poucos à globalização e Jaime Lerner anda muito ocupado. Mas sempre encontrarão um tempinho para uma escapada àquela Amazônia que, dizem, será toda revitalizada. Mas tem de ter steinhager no freezer, a cerveja deve ser gelada, a preço honesto, e, como dizia Antônio Maria, mas sem couvert, sem couvert.Arquivo Casa da MemóriaO Passeio Público, criado há mais de cem anos, foi o primeiro parque de Curitiba. Antes da frequência de prostitutas e ladrões, era o ponto de encontro dos curitibanosA vida passava devagar,
dando chicletes aos
micos ou passeando
de pedalinho no lago

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