Lúcio Horta
As reclamações sobre o atendimento médico oferecido às pessoas carentes sempre foram comuns na paróquia Coração de Maria, localizada na esquina das avenidas Juscelino Kubistcheck e Higienópolis, centro de Londrina. Até que, em 1990, o padre Írio Luís Rissi resolveu conferir a situação de perto. Vestido com roupas simples, ele procurou um dos serviços públicos de saúde.
O padre ficou duas horas na fila aguardando atendimento. Quando finalmente chegou a sua vez, uma moça apontou que ele estava na fila errada. Outra hora de espera e a atendente avisou que as consultas estavam suspensas. ‘‘Passou do horário. Agora só amanh㒒, avisaram a ele e às outras pessoas que aguardavam pelo atendimento.
No dia seguinte, padre Írio voltou para a fila, mas resolveu mudar de tática. Desta vez, foi vestido de terno, gravata e pasta de executivo. ‘‘Fiquei só um pouco e já me passaram na frente dos outros. Me perguntaram o que eu tinha e respondi que não estava sofrendo de nenhum mal, só queria saber como era o atendimentos. E tirei uma conclusão: vou ter que fazer alguma coisa’’, lembra.
A idéia que surgiu na cabeça de padre Írio foi justamente tentar oferecer uma alternativa para as pessoas carentes, que muitas vezes são obrigadas a enfrentar não só a fila como também o preconceito social. Algo próximo ao que ele tinha realizado em cidades que passou anteriormente, como Santos (SP) e Curitiba. O resultado da experiência foi o surgimento do Centro Social da Paróquia Coração de Maria, com oferta de serviços médicos, odontológicos e psicológicos às pessoas da comunidade.
O começo do projeto foi modesto: um médico, um psicólogo e um dentista passaram a atender voluntariamente os carentes na antiga casa de madeira que durante anos serviu como residência dos padres. Tudo era muito precário, mas a demanda foi crescendo. Padre Írio falava sobre o projeto nas missas, a propaganda de boca-a-boca ajudava, e a cada dia mais gente procurava a igreja em busca de auxílio. Também começou a aumentar o número de profissionais que, sensibilizados, ofereciam serviços gratuitamente. Tanto que, seis meses depois de inaugurado, o centro passou a atender em outro local mais amplo, na antiga igreja da paróquia.
Padre Írio conta que o envolvimento da comunidade foi peça fundamental para que o projeto desse um salto nunca imaginado em 1990. Através de doações, campanhas, dízimo e até uma singela contribuição do poder público, em 1995 era inaugurado, ao lado da igreja, o novo prédio do centro social. São 4,1 mil metros quadrados de área construída, divididas em cinco pavimentos. Hoje, quase dez anos depois, o projeto do padre Írio atende cerca de mil carentes por mês. São nada menos que 170 profissionais envolvidos, todos prestando atendimento gratuito. Só dentistas, são 37.
Excetuando as clínicas médica, odontológica e psicológica, também são oferecidos tratamentos de fisioterapia, ginecologia, psicopedagogia, nutricionismo e ainda enfermagem e orientação em advocacia. Os assistidos têm ainda aulas de inglês, tae-kwon do, ginástica olímpica e alfabetização para adultos, sem contar a distribuição de sopa para 300 favelados. A meta para este ano é atingir, com a ajuda do ‘‘sopão’’ do governo do Estado, 1.500 pessoas.
Farmácia Raramente falta remédio na farmácia, que é abastecida pelos próprios médicos e enfermeiros que atendem no local. São aproximadamente 3 mil receitas por mês. Para manter toda essa estrutura, padre Írio gasta mensalmente R$ 15 mil, incluindo o pagamento dos únicos três enfermeiros contratados. Ele destaca que a maioria dos recursos advém da própria comunidade, sobretudo com o pagamento do dízimo por 550 fiéis da paróquia.
O padre também conta com a boa vontade e o entusiasmo dos fiéis para expandir ainda mais os serviços oferecidos pelo centro social. O próximo passo, ele adianta, é um curso de formação de empregadas domésticas, que ele pretende implantar este ano. No curso, a pessoa vai ter noções de cozinha, costura, higiene, entre outras, e ainda poderá ser encaminhada para o trabalho.
Outro projeto é a formação de cursos de capacitação para menores carentes nas áreas de mecânica, serralheria e marcenaria. Também está sendo viabilizada pela direção do centro uma seção para atendimento de doentes com lesão medular. ‘‘Foi obra divina. Senão, como conseguiríamos tanta coisa, tantos profissionais trabalhando de graça?’’

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