'Parei de receber abraços'
Londrina - O grande desafio para o portador de HIV é a própria aceitação. "A primeira luta é você contra você mesmo. É entender que tudo aquilo que você pensava sobre alguém que tinha o vírus agora recai sobre a sua cabeça", revelou a aposentada que há 13 anos descobriu a presença do vírus.
A informação chegou de forma inesperada. O marido da aposentada, internado com o diagnóstico de infecção respiratória, se recuperou após 23 dias de tratamento intenso em um hospital do Rio de Janeiro. Semanas após ser liberado, ele recebeu uma correspondência em que a equipe médica solicitava o retorno ao hospital.
Exames realizados durante o tratamento constataram a presença do vírus HIV. Na época, a aposentada tinha um filho de dois anos, fruto do casamento com o único parceiro sexual. Assustada, Carmem (nome fictício) fez o exame. O resultado positivo causou pânico e desespero no casal. "Eu nunca pensei que isso pudesse acontecer comigo. Casada com o primeiro homem da minha vida e com uma relação estável, foi um susto muito grande", afirmou.
Com base no estado de saúde do paciente, os médicos disseram que o marido de Carmem havia sido contaminado há mais de oito anos. O casamento, que completava seis anos, resistiu ao diagnóstico. O filho estava livre da doença.
A primeira reação do casal foi pensar no pior. "Meu marido entrou em depressão, perdeu o emprego, se afundou na bebida e começou a consumir drogas. A parte psicológica dele ficou completamente destruída", contou Carmem. Em contrapartida, ela se fortaleceu para cuidar do filho e a família resolveu voltar para Londrina.
A aposentada cumpre rigorosamente o tratamento e mantém a saúde estável. "Quem tem HIV não tem uma vida normal. Há barreiras na própria sociedade", desabafou. O preconceito enfrentado ao longo dos anos gerou muito sofrimento à família. Carmem citou vários momentos. "Meu filho tinha seis anos, ele estava brincando com algumas crianças e tinha um chocolate nas mãos. Ele ofereceu o doce para os amiguinhos e, quando uma outra criança foi pegar, um menino disse para tomar cuidado porque ela poderia ficar doente também. Isso me causou uma tristeza imensa", lamentou. Parentes e amigos se afastaram. "Parei de receber abraços e até apertos de mão", ressaltou.
O envolvimento do marido com álcool e drogas foi um dos motivos da separação. A aposentada já se adaptou ao tratamento contínuo e considera os cuidados básicos relacionados a outras doenças como o diabetes ainda mais complicados que os adotados por quem possui HIV. O novo obstáculo de Carmem agora diz respeito à vida amorosa. "Desde que eu me separei, eu não consigo mais me relacionar com ninguém. Eu me afasto de possíveis pretendentes e tenho medo do que eles podem pensar, de como vão reagir quando souberem da doença; isso ainda é um problema para mim", comentou. (V.C.)





