Parecidos, mas diferentes
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terça-feira, 04 de fevereiro de 2014
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 
Londrina - Quando Maria Elizabeth B. T. dos Reis se viu grávida de gêmeos, foi buscar informações, mas encontrou pouca bibliografia no que se refere a questões práticas. A curiosidade aliada ao trabalho em Psicologia Clínica se tornaram, então, um rico material a ser explorado e que originou em uma tese de doutorado.
Hoje, Maria Elizabeth coordena junto com alunas do curso de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) a pesquisa "Individualização e Saúde Mental em Gêmeos: Psicodiagnóstico e Psicoprofilaxia".
O objetivo é estudar os processos de separação e individualização em gêmeos, para verificar a influência da história de vida no desenvolvimento da individualidade de cada cogêmeo. Além de analisar a vivência de cada um como indivíduo e a saúde psíquica em termos de capacidade de adaptação.
"Ainda hoje, se você procura pesquisas sobre o relacionamento entre gêmeos a partir de coisas práticas, por exemplo, se é benéfico ou não vesti-los iguais ou até mesmo frequentar a mesma sala de aula, não há quase nada. E agora me vem o questionamento sobre até que ponto essa gemelaridade interfere na vida de cada um dos cogêmeos", afirma a psicóloga.
A pesquisa está prevista para três anos, mas o planejamento se iniciou no ano passado. Agora, é a fase de convidar 25 pares de gêmeos, do mesmo sexo e com idade entre 25 e 40 anos, para as entrevistas.
"Essas entrevistas vão versar sobre a história de vida, do ponto de vista deles próprios e em relação à vida como um todo, para ver como se situam um em relação ao outro. Outra parte vai versar sobre os aspectos da vida emocional atual para que a gente possa ter uma ideia de como eles têm se adaptado, tanto nos setores afetivo quanto escolaridade, profissional e assim por diante", explica.
Com os dados, o grupo fará um paralelo entre o tipo de vivência que os gêmeos tiveram e a saúde mental deles, do ponto de vista da capacidade de adaptação da vida em geral. Além da contribuição bibliográfica, a pesquisa vai ajudar as pessoas a saber, por exemplo, como nomear os gêmeos para poder identificá-los desde pequenininhos.
"Porque sempre vem a questão: como é que eu posso desenvolver minhas potencialidades se tenho que fazer tudo do mesmo jeito que meu irmão gêmeo?" Por muitas vezes, gera-se uma codependência muito grande. Tem casos de gêmeos que afirmam que até hoje alguns familiares não sabem ao certo quem é quem", ressalta.
Amizade
Para os irmãos Cássio e Carlos César Mozer dos Santos, de 32 anos, a gemelaridade sempre foi vista pelo aspecto positivo. Mesmo na adolescência, quando o fato de serem confundidos a todo momento os incomodava mais, eles sempre acharam legal ser parecidos.
"Quando olho para ele, não me enxergo, ao contrário das outras pessoas. Mas desde pequenos a gente compartilha muito, desde o gosto musical à roda de amigos. Pode até ser que role uma codependência, mas para nós é inconsciente", diz Cássio.
Os irmãos contam que a cumplicidade é tamanha, que até quando dividiam a mesma placenta, dava para vê-los de mãos dadas. "Bom, isso é o que minha mãe conta", comenta Carlos, em tom descontraído.
Entre as diferenças de personalidade, é justamente o jeito extrovertido que eles citam. Enquanto Cássio hoje se mostra um pouco mais tímido, Carlos é o inverso. E mesmo acostumados a fazer muitas coisas juntos, inclusive trabalhar na mesma empresa, os gêmeos garantem que são tão amigos quanto irmãos.
"Quando um está namorando e outro não, é claro que as coisas mudam, mas a gente não deixa de sair para tomar uma, só nós dois, para botar o papo em dia", conta Carlos. Com outros dois irmãos, Carlos e Cássio ainda afirmam que a cumplicidade quando se é gêmeo, é diferente.
"Eu não conheço o mundo sem ele. A gente se espelha muito um no outro, tentando absorver os pontos positivos e também negativos, justamente para não repetir o erro. As pessoas generalizam muito. Elas acham que somos duas pessoas com uma só consciência e, na verdade, não é nada disso", salienta Cássio.
Tratamento
Segundo a professora Maria Elizabeth, a pesquisa também deve chamar a atenção da sociedade para várias questões que os gêmeos vivenciam e que os singulares (que não são gêmeos) desconhecem. E muitas respostas, como o quanto essa amizade imensa contribui para a cooperação e crescimento de ambos, só poderão ser respondidas ao final da pesquisa.
"É um tipo de trabalho que considero inovador, pois a taxa de gêmeos está aumentando significativamente em todo o país devido aos tratamentos contra infertilidade. É um tema que merece atenção", conclui.
Serviço:
Os interessados em participar da pesquisa poderão se cadastrar no site www.uel.br/projetos/gemeos.


