Depois de receber muitas críticas, a Sanepar decidiu modificar a forma de cobrança da dívida dos inadimplentes em situação de pobreza, que deixaram de pagar suas contas durante o período em que o corte estava proibido. Eles estarão dispensados de pagar 50% da dívida e terão seus débitos parcelados em 24 ou 36 vezes, dependendo do caso. Entre os bairros e assentamentos que receberão o benefício estão o Novo Amparo, Santa Fé, São Jorge, João Turquino, parte baixa do Maria Celina e Maracanã.
Segundo o gerente-metropolitano da Sanepar, Paulo Kishima, a partir de hoje a empresa estará contactando os presidentes de associações de moradores destes locais para que façam a lista das pessoas realmente carentes e levem para ser negociada na Sanepar.
Esta a uma contra-proposta à proposta feita por vereadores em reunião na Câmara Municipal na terça-feira. Os vereadores propuseram o fim dos 50% e a cobrança de uma conta e meia até que a empresa conseguisse receber os R$ 6 milhões. A decisão foi tomada pela Sanepar depois de verificar, em três dias de cortes, que o procedimento geraria um caos na cidade, já que muitos dos devedores não têm condições de atender as exigências para evitar o corte. A empresa estava exigindo o pagamento de 50% da dívida e o parcelamento do restante em 13 vezes.
Paulo Kishima, junto com a diretoria da Sanepar, decidiu tomar esta medida no final da tarde de ontem. Muitas pessoas que moram em assentamentos e bairros pobres estavam desesperadas já que não possuíam o dinheiro. Alguns moradores do assentamento São Jorge e do conjunto Maria Celina, ambos na zona norte de Londrina, região em que os cortes iniciaram na segunda-feira, tinham dívidas acumuladas em média entre R$ 200,00 e R$ 800,00.
Respaldados por uma decisão judicial proibindo corte no fornecimento de água, depois que o promotor Hélio Cardoso –hoje vereador do PSB– moveu uma ação, milhares de pessoas em situação de pobreza deixaram de pagar suas contas no período entre março de 2000 e abril de 2001. Quando o Tribunal de Justiça concedeu liminar à Sanepar garantindo o direito ao corte, a cidade tinha 35 mil inadimplentes e a empresa tinha deixado de receber R$ 6 milhões.
O dilema começou quando pessoas carentes não conseguiram negociar suas dívidas. Pessoas com dívidas de R$ 280,00, mesmo oferecendo R$ 100,00 de entrada não conseguiram negociar seus débitos e ontem foram visitadas por funcionários da Sanepar para efetuar o corte. Marlene dos Santos, moradora do Maria Celina disse que sua vizinha estava nesta situação.
Ela mesma afirmou que procurou a Sanepar na terça-feira para negociar sua dívida de R$ 180,00 e não conseguiu. ‘‘Eu tinha R$ 50,00 para dar de entrada, mas não aceitaram’’, contou. ‘‘O rapaz acabou não cortando a água da minha casa e de meus vizinhos, mas deu um prazo até segunda-feira para pagarmos.’’ Marlene disse que não teria o dinheiro e por isso ontem começou a armazenar água para se prevenir contra o corte. ‘‘Eu não gosto de me humilhar, devo quatro talões e se tivesse o dinheiro já teria pago’’, afirmou. Marlene ainda não sabia da decisão da Sanepar de modificar a forma de cobrança.

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