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| Foto: Ricardo Chicarelli - Grupo Folha

Gabriel Veiga Domenegueti: "Eu gosto de treinar, porque aqui eu encontro os amigos"

Os esportes praticados por pessoas com deficiência conduzem a experiências que transcendem o "simples" fato de serem vitoriosos em uma modalidade. Essas atividades geram benefícios físicos e emocionais e podem desencadear melhorias em seu quadro geral, tanto na saúde, no bem-estar, na autoestima; e também para os familiares e amigos que acompanham a sua evolução.

O presidente da Abdem (Associação Regional de Desporto para Deficientes Intelectuais) e vice-presidente da CBDI (Confederação Brasileira de Desporto para Deficientes Intelectuais), Edson Martinussi, de Londrina, destaca que o esporte ajuda o atleta a se desenvolver em todos os sentidos. Ele, que é professor de Educação Física do Ilece (Instituto Londrinense de Educação para Crianças Excepcionais) , afirma que o esporte ajuda na sociabilização.

“Além do aprendizado de regras, os alunos podem se desenvolver nas competições, pois interagem com os atletas de outras cidades que são de fora de seu círculo de convívio”, destaca Martinussi. Ele acrescenta que só o fato de saírem de casa e não ficarem com suas famílias durante o período de competição é o suficiente para incentivar a autonomia. “Os atletas aprendem a ter uma independência e conseguem se virar sozinhos. Isso é um fator muito importante. Em viagens com a delegação de atletas para outras cidades, por exemplo, eles ficam hospedados nos hotéis e precisam se virar sozinhos”, aponta.

Martinussi é técnico de Gabriel Veiga Domenegueti, 36, atleta do tênis de mesa que possui síndrome de Down. Domenegueti afirma que a sensação de vencer uma partida ou um campeonato é incrível, mas também enumera outros benefícios. “Os treinos são bons para a saúde. Me sinto melhor depois de um dia de treinos, porque faço preparação física para jogar bem, e isso inclui a prática da corrida e de alongamento. Depois eu realizo o treino prático, jogando a bolinha para rebater. Isso melhora muito os meus reflexos e a coordenação”, detalha.

Domenegueti destaca que é preciso ter muita dedicação e vontade para treinar. “Mas para mim é muito gostoso jogar. Além disso, eu gosto de treinar, porque aqui eu encontro os amigos. Fico esperando o dia de treino só para vir aqui e encontrá-los, já que eu só os vejo aqui. Com eles eu converso bastante, principalmente sobre os treinos. Eles me dão dicas e eu dou dicas para eles”, descreve.

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Renata Venâncio: "Eu agradeço a minha família por me deixar competir fora de Londrina"

Sua colega de tênis de mesa, Renata Venâncio, também tem síndrome de Down. Ela já viajou para cidades como Rio de Janeiro e Francisco Beltrão (Sudoeste) com a equipe e também ressaltou que o esporte é importante. “Eu agradeço a minha família por me deixar competir nessas cidades fora de Londrina e por me levar a sério. Isso me deixou muito feliz. Em um sul-americano competi contra atletas da Argentina, Paraguai e Chile e foi muito legal conhecer essas pessoas”, observa.

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Fábio Costa: "Para mim o esporte possibilita que eu conduza a minha vida"

Fábio Costa possui deficiência intelectual e retornou recentemente de uma competição em Bogotá, na Colômbia, onde disputou as provas de atletismo nos 100 metros, 200 metros e 400 metros. “Para mim o esporte possibilita que eu conduza a minha vida adiante. Antes de ser esportista a minha vida era ruim. Eu não era nada. Eu sentia que o corpo ficava pesado. Para treinar faço alongamento e aquecimento e depois vou correr", explica. "Aqui comecei a amizade aos poucos, fui me ambientando conforme os professores foram me apresentando aos colegas. Com isso fui me enturmando. Aqui tem mais de 50 atletas e hoje ajudo e dou conselhos para os outros. Quando conquisto as medalhas, me sinto feliz. Antes achava que não podia ganhar, porque via os outros e achava que eles eram muito rápidos para mim. Hoje vejo que é só treinar bastante para conseguir os resultados. Agora minha vida é mais alegre”, acrescenta.

PALAVRA-CHAVE É PACIÊNCIA

O técnico Edmundo Silva Novais , do Ilece, afirma que no início muitos pais são protetivos. “A gente precisa passar a autoconfiança tanto para os atletas como para seus pais e isso só acontece na prática diária. Quando o pai ou mãe vem trazer o filho e observa o que vem sendo trabalhado dizemos que a palavra-chave para isso é paciência, porque os atletas não se desenvolvem na mesma velocidade que atletas que não possuem essas limitações", conta. "Trabalhamos exaustivamente a coordenação motora, os reflexos e o condicionamento físico para melhorar a sua performance e graças a Deus todos respondem muito bem, cada um dentro de sua limitação e capacidade”, enaltece.

Quando Novais vê alguém se desenvolvendo sente uma gratificação muito grande. “Eles superam os seus limites e adquirem uma capacidade que não tinham. Os pais reconhecem esse trabalho e incentivam seus filhos. Querem tanto estar juntos e incentivar seus filhos que, quando marcamos reuniões, não falta um. É uma coisa bacana, muito legal de se ver”, destaca.

O técnico ressalta que no mundo das pessoas com deficiência existe uma falsa ideia de incapacidade. “No esporte existem regras e através dos treinamentos os paratletas têm condições de mostrar o que aprenderam. Eles conseguem mostrar que têm todas as condições de aprender quanto as pessoas que não possuem deficiência”, aponta.

Ele também ressalta que o esporte trabalha muito a parte social. “Todos eles conhecem pessoas e novos lugares. Fazemos um trabalho de convencimento com as famílias para dizer que seus filhos têm potencial grande de desenvolvimento. Marcamos reuniões e conversas individuais com as famílias, fazemos uma análise de qual modalidade ele pode se encaixar melhor. Assim a família começa a incentivar”, destaca.

Uma de suas atletas é Jeniffer da Silva, 26, que pratica badminton. Ela diz que o esporte faz parte de sua vida. “Eu sinto que os meus colegas são como a nossa família. Cada um cuida bastante do outro. A gente troca conselhos. Errar e perder faz parte e isso os professores ensinam para a gente. Às vezes a gente leva uns puxões de orelha, mas isso faz parte. Quando jogo errado, os meus amigos falam para eu 'tacar' dentro da quadra", expõe a atleta, que tem deficit cognitivo.

Ela ressalta que o esporte em geral melhora a sua autoestima. “Meus pais choram de felicidade quando participo de competições. O esporte me possibilitou ter coisas que eu não teria condições de adquirir. Hoje tenho meu carro, que comprei economizando o dinheiro que recebo pelo bolsa atleta."

RECEPCIONANDO OS NOVATOS

Demitri Wesley da Silva Praes, 30, possui deficiência intelectual e isso não o impede de ser faixa vermelha no taekwondo, ou seja, está a apenas duas faixas para a obtenção da tão sonhada faixa preta. Atleta do Ipec (Instituto Paranaense de Esportes e Cultura, Londrina), ele começou a treinar taekwondo no mesmo dia em que a sua mãe Joana D'Arc começou a treinar em um projeto social, há quatro anos. Ela parou pouco tempo depois, mas Demitri continuou. “Muita coisa me atraiu para que eu permanecesse, entre elas a disciplina no esporte e a possibilidade de fazer muitas amizades. Depois que comecei a treinar melhorei a minha coordenação motora e minha disposição. Eu dormia muito por causa dos medicamentos, e com o esporte estou mais acordado", relata.

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| Foto: Gustavo Carneiro - Grupo Folha

Demitri Wesley da Silva Praes com os pais Joana D'Arc e Carlos

Ele afirma que ainda não participa de competições em cidades distantes de Londrina, porque tem medo de viajar de avião. Por ser bem graduado, ele ajuda o seu treinador com os atletas iniciantes. “Eu me sinto contente ensinando os mais novos. Eu passo tudo o que aprendi. Não é difícil fazer isso e ao mesmo tempo me proporciona um desempenho melhor quando disputo o ponce (simulação de golpes no taekwondo)”, destaca.

A mãe do atleta afirma que o relacionamento com o filho mudou depois que ele passou a praticar esportes. “Não tenho palavras, foi muito bom", conta, acrescentando que o seu raciocínio ficou mais rápido e que o convívio com outras pessoas aumentou o repertório de histórias que ele conta. Fora isso, o ganho em sua saúde foi grande.

Seu pai é o servidor público Carlos Athayde Praes, que também percebeu uma mudança muito grande. “Mudou a coordenação motora dele, mas o principal para nós foi a mudança de sua sociabilidade. Ele sempre gostou de fazer amizades, mas ficava muito em casa, dormindo por causa do efeito dos remédios que ele toma. Outro efeito colateral dos remédios é que isso o faz ganhar muito peso. Com o esporte ele consegue controlar o aumento da obesidade”, expõe.

Ele relata que Demitri começou a manifestar a deficiência intelectual aos 14 anos. “Isso foi muito difícil para a gente, porque a gente não sabia lidar com essa situação”, destaca. "Quando ele ganhou a primeira medalha senti orgulho porque a gente percebe que apesar das limitações que tem é capaz de entrar em uma disputa e de alguma forma ser premiado por isso. O prêmio é é perceber que o esporte é uma realização de tudo o que a gente tenta fazer por ele”, declara.

O professor de taekwondo, Vagner Lopes, garante que Demitri é tratado nos treinos como os outros. “Isso até é usado para que ele se motive na forma que ele se coloca diante de outros atletas. Passo o mesmo treino que passo para outros atletas”. Segundo ele, a única diferença é que por causa das limitações do atleta, precisa realizar várias repetições para assimilar e memorizar os movimentos.

Lopes confirma que Demitri o auxilia nos treinos. “Ele gosta de treinar. No dia de treino fica mais animado e ajuda no contato com as pessoas. Ele é bem receptivo e quando tem pessoas novas, ele faz questão de recepcionar os novatos e mostrar o que sabe. Isso motiva ele”, destaca.

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