Parar de fumar é possível
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quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Thiago Alonso<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Não adianta tapar os olhos: o cigarro é um companheiro e tanto. Parceiro das horas solitárias, ele preenche o vazio da sala. Quando se está triste, nervoso, ansioso, estressado, idem. Também nos momentos de alegria e celebração, acende-se um cigarro para beber e brindar com a felicidade. Melancólica ironia. Levar um cigarro à boca é como beijar um inimigo.
A metáfora do companheiro traidor é usada pela jornalista Adélia Maria Lopes. Durante 25 anos, ela conviveu com o cigarro, como se vivendo um casamento perfeito - só que sem saber que o cônjuge a traía. Começou a fumar porque na juventude a regra que imperava era a da contestação, da liberdade acima de tudo. O cigarro tornou-se seu melhor companheiro. ''Ele é uma muleta'', diz.
Quando andava de carro, lá estava o companheiro entre os dedos, amarelando-os. No banco de trás do automóvel, estavam os vários maços que ela olhava pelo retrovisor. Quando o telefone tocava, Adélia não sabia atendê-lo sem acender um cigarro. No trabalho, quando proibiram de fumar dentro da sala, o rendimento caiu pela metade. Desmarcou uma viagem para Alemanha por causa do cigarro. Como iria se separar do companheiro durante o vôo? Jamais! Não foi.
Para quem chegou a fumar cinco maços por dia - ou seja, 100 cigarros - ter largado o vício há quatro anos foi uma atitude que Adélia considera uma vitória. Ainda mais para ela, que gostava de fumar. ''Sempre achava engraçado pessoas dizerem que pararam de fumar; fazerem campanhas contra o fumo... Hoje sou exemplo'', orgulha-se.
Quem a ouve falar, pode pensar que foi fácil. Não foi. Foram precisos alguns métodos para ajudar: acupuntura auricular e a laser, florais e um porre de cigarro. Na ocasião, fumou desde as primeiras horas da manhã até a madrugada do dia seguinte, em uma festa. No outro dia, usou a ressaca de tabaco para largar. ''Se ficar cinco minutos sem fumar, fico 10. Se ficar, 10, fico 15. Se ficar 15, nunca mais fumo'', pensou. Dito e feito: a força de vontade e a terapia tiveram efeito.
Vilão
A assessora parlamentar Sônia Maschke achava glamouroso fumar. Era o que se passava nas fitas de cinema quando tinha 16 anos. Fumar era sinônimo de luxo, charme, elegância. O cigarro seduz. Sônia só conseguiu se desvencilhar dos braços do galã há quatro meses, quando parou de fumar com ajuda de remédios. Só agora tem a certeza de que durante 30 anos foi enganada. O mocinho era, na verdade, o vilão.
Ela, porém, não se iludia. Sempre soube que a relação com o cigarro era perigosa. ''Já não sabia o que era vício e o que era prazer'', diz. Ainda assim, não conseguia largar. Como se disse, o fumo tem armas que pegam pela boca. Sempre dá um jeito fazer a pessoa voltar ao vício. Com Sônia não foi diferente. Tentou parar por diversas vezes. Não dava. Eterno retorno. ''Adotei o lema dos alcólicos anônimos: vou ser sempre uma fumante, mas não vou fumar hoje'', revela. De vez em quando, Sônia se pega com vontade de fumar. Resiste bravamente.


