Um cruzeiro na beira da PR-454 marca a entrada de Içara, distrito rural de Astorga (Norte). Pelas ruas do lugarejo, fora alguns homens na porta de um bar, o movimento é mínimo. Nos fundos de um casebre de madeira de uma rua de paralelepípedos, em dois cômodos construídos em alvenaria por voluntários da igreja evangélica, mora uma ilustre brasileira, nascida, segundo sua bem conservada cédula de identidade, em 28 de fevereiro de 1880. Ela é Maria Olívia da Silva, que amanhã completará 130 anos.
Tão humilde quanto o lugar de sua morada é a vida de dona Maria Olívia, que vê o tempo passar sem muito ânimo e com uma relativa lucidez, ao lado de sua cuidadora, Edna Pereira dos Santos, e do filho adotivo Aparecido Silva, 58 anos. Alheia à fama e ao fato de, quem sabe, ser a pessoa mais velha do mundo, ela só se preocupa com o fato de seu café da manhã estar bem feitinho, com as horas das refeições e com as dores, muitas, que sente pelo corpo. Fora isso, sua cabeça também é ocupada com o medo que tem da solidão. Às vezes reza para não ser abandonada pelo filho e pela Inês, nome que ela deu à cuidadora sem mais nem menos.
Depois de acordar às 9h, ela toma o café com leite acompanhado de um pão. Quanto tem visita, fica mais falante. Cruza as pernas na cadeira de varanda e fala, ao seu tempo. ''Ué, por que vocês tiram tantas fotos?'', questiona, achando interessante a luz do flash do repórter fotográfico da FOLHA. Quando pedem para que ela dê um sorriso para sair mais bonita no retrato, é curta e grossa: ''rir do quê?'', esboçando, em seguida, um risinho.
Questionada sobre sua história, ela não relata lembranças do passado. Limita-se a dizer que viveu muito bem, passeava, ia para todos os lados. ''Hoje acabou tudo. Não consigo fazer mais nada''. A senhora se sente feliz? ''Mais ou menos'', responde.
O filho dela, Aparecido, sabe tão pouco quanto sobre a história da mulher. Diz somente que ela é mãe de 14 filhos, sendo quatro adotivos. ''Tem uma mulher em Maringá e um homem e Rolândia. Já estão velhos'', ele diz, mas não sabe precisar endereço ou forma de contato com os irmãos. Sobre a documentação da mãe, conta que um incêndio quando a família morava em Santo Inácio (Norte) queimou tudo. ''O marido da minha mãe morreu em 1964. Todos casaram, ficamos eu e ela. Passamos por Cafeara, Lupionópolis, Porecatu, Cruzeiro do Oeste, Cianorte, Maringá, até vir para Içara, lugar mais sossegado'', conta.
Por Porecatu (Norte) a família de fato passou. Nessa cidade é que foi lavrada a certidão de nascimento tardia, em março de 1976. ''Ela compareceu ao cartório requerendo o direito de fazer a certidão de nascimento. Baseada na Lei 765, de 1949, a juíza da comarca à época solicitou a assinatura de duas testemunhas que afirmassem que Maria Olívia da Silva tivesse nascido em 28 de fevereiro de 1880, na cidade de Itapetininga (SP). Assim foi feito e a certidão de nascimento confeccionada'', conta a oficial designada do Cartório de Registro Civil de Porecatu, Martha Loecy Santos. Com base nessa certidão de nascimento, saiu o RG, bem conservado, expedido em 2001, com a inscrição que chega a parecer irônica: maior de 65 anos de idade.
A fragilidade das provas sobre a data de nascimento, endossada apenas por duas testemunhas mais jovens que Maria Olívia, é a causa da não aceitação dela pelo Guiness Book, o livro que registra os recordes mundiais, como sendo a pessoa mais velha do mundo. A recordista da edição 2009, a norte-americana Gertrude Baines, morreu em setembro do ano passado, aos 115 anos. Agora, a cubana Juana Rodriguez, 125, reivindica a vaga.
Independente do reconhecimento internacional, a mulher de Astorga às vezes é visitada por gente que fala umas línguas estranhas. Um até deixou um chaveiro de Nova York e alguns dólares. ''Tiraram um monte de foto'', revela a cuidadora. Para dona Maria Olívia, nada disso tem importância. Ela só gostaria que o intestino funcionasse melhor e que os ossos parassem de doer.

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