Curitiba O Paraná terá a partir deste sábado, dia 10, o primeiro padre surdo. Wilson Czaia, de 37 anos, venceu o desafio de completar os sete anos de estudos de Filosofia e Teologia e vai realizar um sonho que nutre desde a infância. Aos quatro anos, Wilson, que nasceu surdo, começou a aprender a linguagem de sinais e aos poucos foi aprendendo o alfabeto, as letras, as palavras. ''Eu não sabia falar nada porque não conhecia a técnica da vibração. Fui aprendendo aos poucos. A leitura labial é difícil. As palavras são confusas. Uma pessoa fala maçã e eu entendo massa. Outra fala sábado e eu entendo sapato. Mas são dificuldades que são extintas com a linguagem de sinais. Graças a Deus pelos sinais'', confessou.
A vocação de Wilson foi percebida desde cedo por todos. Mas o fato dele ser surdo atrapalhava. ''Eu fazia catequese com uma irmã que sabia a linguagem de sinais. Nas provas, não tirava menos de dez. Ela dizia que eu iria ser padre. Mas ninguém acreditava que era possível um surdo ser padre. Minha família apostava no meu irmão, que fez seminário e desistiu''.
Wilson se decidiu mesmo pelo sacerdócio em 2000, quando foi fazer uma comunhão de crianças surdas em Paranaguá (Litoral). ''Olhei as crianças e senti algo forte, que tinha um chamado de Deus para ajudar as crianças que não tinham acesso à linguagem de sinais. Fiquei tocado profundamente. Tive convicção que tinha que ser padre para atender aos surdos que não têm com quem se confessar, não entendem cerimônias de casamento, batismos'', explica.
De acordo com os dados da Pastoral do Surdo, existem em Curitiba cerca de 65 mil surdos. São 5 milhões no Brasil. Hoje a Pastoral, que tem atividades em todo o Paraná, atende cerca de 15 mil deficientes. ''Os surdos estão cada vez mais articulados e preparados. Eles estão inseridos no mercado de trabalho e dentro da Igreja'', ponderou o assessor da Pastoral dos Surdos, Ricardo Hoepers. Ele também é o coordenador da Campanha da Fraternidade deste ano na Arquidiocese de Curitiba. O tema da campanha é ''Pessoas com Deficiência''. Wilson será ordenado oficialmente padre no sábado, mas já atua em traduções e orientação em cursos de noivos em todo o Brasil.
Apesar do pouco tempo como padre, ele terá um grande privilégio entre os sacerdotes da Igreja Católica. Foi convidado para ir em julho receber a benção do Papa Bento XVI em Roma, no aniversário de 25 anos da Pastoral do Surdo no Brasil.
''Hoje me sinto seguro em ser ordenado padre. Acredito no que estou fazendo e não acho que terei que enfrentar preconceitos ou limitações. Estou pronto para fazer o que me mandarem'', disse ele. Apesar de ter preferência pela Pastoral do Surdo, Wilson está disposto a fazer o que os bispos católicos ordenarem. ''Estou indo fazer tudo: rezar missa para surdos, celebrar os sacramentos, realizar casamentos, ser um missionário nas casas das famílias surdas, evangelizar. Não quero que falte nada''.
Após realizar o sonho de ser padre, Wilson já pensa em novos desafios, como aprender música. Ele já arriscou aulas de teclado e de flauta.

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