A aposentada Iolanda (nome fictício), 67 anos, foi diagnosticada com hanseníase há cinco anos. Manchas nas costas e sensação de calor no rosto foram os sintomas que a levaram a procurar um dermatologista, que diagnosticou a doença já na primeira consulta.
  ‘‘Fiquei preta por causa dos remédios e o povo sempre perguntava o que eu tinha. Preferi nunca falar nada para ninguém, mas muitos familiares se afastaram de mim depois que souberam que eu estava com hanseníase’’, contou Iolanda, que mesmo após o término do tratamento ainda acredita que, no caso dela, a doença não tem cura. ‘‘Acho que é hereditário e o bacilo ainda está no meu corpo. Sinto dores nos pés e nas pernas’’, reclamou.
  Um mau diagnóstico levou o pedreiro José (nome fictício), 42, a perder parte de um dedo da mão direita. Há dez anos ele convive com a hanseníase e como o tratamento iniciou tardiamente, a doença deixou seqüelas: mão direita e pé esquerdo totalmente amortecidos. ‘‘Tenho certeza de que carregarei a doença para o resto da vida’’, lamentou José, que teve de se aposentar há três anos, por não ter condições físicas de trabalhar.
  ‘‘Eu nem imaginava que poderia ser hanseníase, nunca tinha ouvido falar na doença’’, comentou o pedreiro, que sugeriu a realização de mais campanhas de conscientização da população. ‘‘Ainda há bastante preconceito, nem todo mundo entende que uma vez tratada, a doença deixa de ser contagiosa.’’ A mulher dele foi contaminada, mas curou-se após um tratamento de seis meses.
  Diferente do que ocorre em países europeus, onde a hanseníase já foi erradicada, por aqui a doença ainda constitui um relevante problema de saúde pública. É o que afirma a dermatologista Lúcia Emiko
Takaoka, convidada para a
palestra de abertura, ontem à noite, da Jornada de Dermatologia promovida pela Associação Médica de Londrina. O evento faz parte da programação do 45º Congresso Médico de Londrina, que se estende até novembro.
  De acordo com a dermatologista, o Brasil é o segundo país do mundo em casos de hanseníase, líder nas Américas: no ano passado foram diagnosticados 46.570 novos casos. Na Região Sul, o Paraná é o estado com o maior número de doentes: 1.321. Para Lúcia, o diagnóstico tardio ainda é o que compromete a erradicação da doença. ‘‘É preciso treinar médicos de outras especialidades. Sinais de hanseníase podem ser percebidos por um médico observador muito antes do próprio paciente perceber que a sua pele está diferente’’.

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