Paraíso tem favela e está dividido
Mário CésarFátima da Silva: A gente acostumaAlém de conter uma favela em seu território, o Jardim Paraíso está dividido. Tem a parte de cima e tem a parte de baixo. O pessoal de cima parece que não gosta muito da gente, acha que aqui também é tudo favela. Nada a ver. Moro aqui há anos e não tenho queixas.
A opinião é do comerciante mineiro Cecílio Ferreira Vieira, 33 anos, nascido em Francisco Badaró e que chegou a Londrina em 1969. Um ano depois, ele já era morador do Jardim Paraíso, na zona norte da Cidade, onde está até hoje, com a mulher e três filhos, e onde mantém um bar.
O principal motivo do racha no Paraíso, segundo Cobrinha - apelido de Cecílio -, foi a linha férrea, instalada na mesma época em que ele se mudou para lá e que dividiu, fisicamente, o bairro. Depois ficou tudo repartido, tem gente que fala que tem o Paraíso 1, que é a parte mais alta, onde dá para ver o centro; e o Paraíso 2, que dá vista para a linha de trem e os Cinco Conjuntos. Por isso, a maioria considera que aqui, no 2, é favela. Mas eu não me importo, porque moro aqui há muito tempo e não tenho do que reclamar.
Na verdade, Cobrinha não temmuito do que reclamar. Ele diz que já foi assaltado duas vezes no ano passado e é muito raro ver a polícia passar no local fazendo ronda. Num dos assaltos, perdeu a motocicleta e nunca mais recuperou.
Outro problema, segundo o comercianteé a falta de limpeza. A vila está mesmo é abandonada. Se é para fazer roçada, tem que chamar a prefeitura duas, três vezes, senão ninguém vem. No campinho de futebol fizeram alambrado, que todo destruído. E quando chove é uma complicação, o barro desce todo pelas ruas, sentencia.
No bar do Cobrinha - comprado por ele há um ano e meio -, a pintura velha e descascada revela num canto da parede aquilo que é considerado por muitos como o verdadeiro paraíso: praia, sol, coqueiros, uma ilha deserta. O trabalho data do começo da década de 70, quando o comerciante ainda mal sabia o que ia fazer da vida. Ih, rapaz, isso aqui para ser um paraíso mesmo ainda falta muito. Aliás, falta tudo: falta creche, posto de saúde, falta módulo policial. Mas a gente gosta do bairro.
Atravessando a linha, já no Paraíso 1, muito próximo das casas de alvenaria e das ruas asfaltadas, a região também apresenta um cantinho que está longe de ser considerado a parte privilegiada do bairro. Os barracos alí foram surgindo aos poucos, um ao lado do outro, quase no meio do mato, e hoje o local também é apontado como a Favela do Paraíso.
Apesar de tudo, aqui até que é gostoso. A gente vai se acostumando, afirma a dona-de-casa Fátima da Silva, 18 anos, casada e mãe de Michele, de um ano e nove meses.
Morando do Paraíso há seis anos, Fátima não gosta quando chove forte. Aí enche de água, o barro se espalha para todo lado. Esse é o maior problema que a gente tem aqui, observa.
Além do barro, a dona de casa diz também que os moradores ficam muito preocupados os fios de alta tensão que passam sobre os barracos, acompanhando a linha do trem. Dias atrás, houve um estouro forte e a energia elétrica foi interrompida no ato. Os moradores se assustaram. A gente fica sismada, mas não deve dar problema não, arrisca, enquanto estende roupas no varal.
Quem não está nem aí para os problemas são as crianças que moram no local e se divertem na terra, brincando com a velha bola de capotão. Diversão que em breve deve mudar de endereço. Segundo informação da Cohab, todas as famílias que hoje estão na ocupação irregular deverão ser removidas até o final do ano para o assentamento São Jorge, na zona norte de Londrina. Se o trabalho for concretizado, será o fim da Favela do Paraíso.





