Parabólicas apontam para o céu no 'Serra Pelada'
Lúcio Horta
De Londrina
Difícil explicar em palavras o tamanho do de clive. Mas o fato é que antes mesmo do Con junto Padre Rino Nogarotto ser concluído, em 1987, em Ibiporã (14 km a leste de Londrina), o apelido de Serra Pelada surgiu. A idéia nasceu da semelhança - ainda que leve - entre o formigueiro humano que era o garimpo paraense e a ribanceira local. Não à toa, muita gente questionou, na época, a viabilidade técnica do projeto: como é que se pode levantar casas num local tão íngreme?
Certo ou errado, o Serra Pelada de Ibiporã nasceu, cresceu e, ao contrário do xará nortista, continua mais vivo do que nunca. Assim como o apelido, que pegou firme entre toda a população. Hoje, na cidade, tem muita gente que não conhece o conjunto Rino Nogarotto. Mas se falar em Serra Pelada, todo mundo sabe onde fica, diz o ensacador aposentado José Batista dos Santos, 60 anos, conhecido na região como Zé Bagaço.
O aposentado lembra que chegou na primeira leva de moradores que ocuparam o bairro, ainda no final da década de 80. Em Ibiporã há mais de 40 anos, ele recorda que, antes de abrigar um conjunto habitacional, a ribanceira do Serra Pelada ostentava milhares de pés de café. Depois virou pedreira. Aí fizeram o conjunto popular, recorda.
As casas do novo conjunto foram sorteadas entre os que estavam na fila da Cohapar. Zé Bagaço teve sorte de ser um dos escolhidos, mas a casa dele fica bem na parte de baixo do bairro. Ou seja, quando precisa ir ao centro ou pegar um coletivo, já sabe que vai suar a camisa: o ponto de ônibus fica muitos quarteirões acima. Subo direto. O médico até proibiu por causa da perna, mas eu vou fazer o quê? Já até pedimos para o ônibus passar aqui para baixo, mas não tem jeito.
Dona Henriqueta Malvina Celere Santos, 47 anos, teve mais sorte: a casa dela é uma das primeiras da parte de cima do Serra Pelada. Ela conta que, antes mesmo de ser sorteada ou do bairro ficar pronto, ficava namorando a construção das casas e imaginando qual delas seria sua. Se pegasse uma casa lá embaixo, não me importaria. Gosto muito daqui.
Quem costuma subir e descer as ladeiras do Serra Pelada é o verdureiro Alcides Ferreira, 51 anos, morador do Jardim San Rafael. Dia sim, dia não, estou por aqui. E no Serra Pelada é onde mais vendo. A turma fica boba de ver. Só que cansa um pouco, a subida é feia. Sorte que tenho saúde de ferro, diz.
Mas o subidão - para baixo todo santo ajuda, repete Zé Bagaço - não é o único problema do bairro. Como fica numa ribanceira, dificilmente uma antena comum consegue captar os sinais de televisão. Resultado: olhando o bairro por cima, o que se vê em baixo é um verdadeiro festival de antenas parabólicas.
E tem mais: Zé Bagaço - que já foi candidato a vereador e hoje diz que não quer mais saber de política - afirma que falta escola, farmácia, mercado, mais telefones públicos e pelo menos um campinho de futebol para a criançada bater bola. Nessa área aqui do lado (de baixo) era para sair outro conjunto. Como não saiu, sobra mato e tem muito bicho entrando na casa da gente. Dá de tudo: aranha, barata, pernilongo e muito mais.
Dona Henriqueta acrescenta que o morro que separa a parte de cima do Serra Pelada com outro conjunto - o Ângelo Maggi, conhecido como Picão - está completamente abandonado há mais de uma década. Sempre foi assim, abandonado. E o pessoal de cima joga lixo lá; o pessoal daqui também joga; e o mato está sempre alto. A prefeitura só limpa depois que a gente liga várias vezes, assegura.
Noêmia Ribeiro, 34 anos, também moradora do bairro, faz coro com a vizinha. Para capinar tem que insistir muito. A sorte é que esses dias tinhas umas vaquinhas lá e ajudaram a aparar a grama. Mas a prefeitura tem a tendência de esquecer os bairros e só lembrar do centro, critica.
Curioso é que, no meio do barranco, tem uma escultura de tijolo e cimento de um artesão conhecido como Zé do Barro. A obra é uma imagem de Jesus Cristo, que permanentemente fica de abraços abertos sobre a lixarada que se forma no local.
Gimeri Corsini Calsavara, secretária de Obras do município, garantiu que ainda este ano o problema deve estar resolvido. A prefeitura está concluindo a reformulação de um antigo projeto que prevê uma praça em toda a extensão de onde hoje está o barranco. Até agosto a obra deverá ser licitada e entre setembro e outubro começa a execução, com duração de aproximadamente 60 dias. Segundo a secretária, a praça vai ter jardim, bancos, parque infantil, campo de bocha e outros equipamentos de lazer.
Com praça ou sem praça, os problemas apresentados não ofuscam o carinho que têm os moradores pelo Serra Pelada. Todos foram unânimes em afirmar que o bairro é tranquilo e de boa vizinhança. Lugar ideal, por exemplo, para quem já trabalhou muito e hoje só pensa em descansar e pensar na vida.
Passo o dia aqui, sem fazer nada. Igual ao Cristo (abandonado no morro). É muito bom, não tem o que dizer sobre o bairro, afirma o aposentado Noel Ribeiro, 60 anos, pai de Noêmia. A gente reclama, mas aqui é quieto, sossegado, não tem violência. Não pretendo sair tão cedo, acrescenta Zé Bagaço.
PERFIL
Nome: Conjunto Padre Rino Nogarotto
Apelido: Serra Pelada
Fundação: 1987
Localização: Ibiporã
População: 750 pessoas (estimada)
Número de casas: 170
Infra-estrutura: água, luz e esgoto





