Curitiba - Há cerca de três anos, a família de Cristiana Lie convive com vizinhos sem rosto, mutantes, muitas vezes desordeiros e ameaçadores -ao mesmo tempo, alguns deles não têm um abrigo onde viver. Desde que o imóvel ao lado da casa de Cristiane foi desalugado, começou a ser invadido por moradores de rua sem-teto. Antes, a casa pertencia a uma empresa que, segundo Cristiana, faliu. Depois disso, não foi feito mais nada com o imóvel, nem vendido, alugado ou demolido. Ela sabe pois está envolvida até o último fio de cabelo com o problema. Ela, o marido e os filhos acompanham, mesmo que involuntariamente, a movimentação diária no imóvel vizinho.
Quando a noite chega, os primeiros moradores transitórios começam a penetrar pelo portão que Cristiana já cansou de trancar com cadeados. A meia dúzia que colocou foi arrebentado. Desistiu. Contato com a polícia, Corpo de Bombeiros, Prefeitura de Curitiba, proprietários: nada disso surtiu efeito. Enquanto isso, quando já não há mais sol, a movimentação dos vizinhos indesejados começa.
Normalmente, diz ela, são três ou quatro. Não faltou noite, porém, que até 20 pessoas dividiram os cômodos da casa. "Era um noite de chuva. Havia três grupos diferentes", relembra Cristiana. O quarto de seu filho de seis anos divide parede com a casa abandonada. Não raro, a criança chama a família, pois ouve vozes. Para o filho não ficar só, os pais acabam dormindo com ele. "É aí que a gente ouve tudo", diz Cristiana.
Entre as histórias e algazarras, já ouviu referências a uma garota ferida dentro da casa, enquanto homens perguntavam o que seria feito dela. Armas, assassinatos, uso de drogas. Vez ou outra, temas como estes fazem parte das conversas. O medo aumenta. Cristiana lembra ainda da falta de higiene, já que os moradores usam o muro ao lado de sua casa como sanitário. "Existem dias que o cheiro é muito forte", conta a mulher, fazendo uma careta como se o estivesse sentindo naquele momento.
A fria Curitiba ainda fornece um dado novo: o fogo. Para se proteger nas noites gélidas, os sem-teto fazem fogueiras dentro das casas. O medo de Cristiana é justamente a falta de controle sobre esse fogo. "Nosso principal medo é colocarem fogo lá e ele passar para cá. A casa é muito velha", diz sobre a residência vizinha. Outro receio é que os "vizinhos" tentem invadir seu lar. "A gente se defende como pode: alarme, grades, portões altos", suspira, já sem saber mais o que fazer. (T.A.)

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