Para uns, o Natal pode ser de tristeza
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sexta-feira, 11 de dezembro de 1998
Dimitri do Valle 
Natal chegando. Além de presentes, o pacote expõe sentimentos. São emoções que evidenciam alegria, mas também acirram tristeza, saudade e solidão. Quem tem problemas de ordem financeira ou pessoal que o diga. Vou passar o Natal que nem casco de tartaruga: duro, brinca o desempregado Jussinei Luz Santos, 19 anos, enquanto vasculha uma lista de oferta de trabalho na sede do Sistema Nacional de Empregos (Sine), em Curitiba.
Jussinei tenta encontrar no trocadilho o amortizador de um ano e seis meses sem emprego. Tem que fazer anedotas para não chorar, justifica. Para ele, Natal é sinônimo de escassez. O do ano passado não foi aquelas coisas e este ano também não vai ser, afirma. Importante parcela desta situação, acredita Jussinei, tem culpado certo. O governo não faz a coisa certa, reclama.
Albari RosaQue festa?Oraíde Ferreira, gari: O Natal do pobre sempre foi difícilO gari Oraíde Francisco Ferreira, 32 anos, ainda não sabe se terá dinheiro para comprar presentes para os três filhos menores. O Natal do pobre sempre foi difícil. A gente gostaria de dar uma coisa boa para as crianças, mas não posso fazer planos, antecipa. Recebendo R$ 250,00 por mês, Ferreira enfatiza o problema e tenta encontrar a solução. Tenho esperança. Tem que ter uma melhora, assim não dá para continuar, espera.
No Centro de Valorização da Vida (CVV) - uma espécie de confessionário de dramas pessoais -, o Natal representa uma época de muito trabalho para os voluntários que atendem pelo fone 342-4111. No Natal há o problema da solidão, explica o advogado Wilson Brustolin, 58 anos, voluntário há quatro. Em 98, segundo ele, há novos ingredientes para complicar os sentimentos das pessoas. Estamos enfrentando falta de dinheiro, emprego, alterações na Previdência Social e as incertezas do Plano Econômico, cita.
O perfil dos que ligam para o plantão do CVV em período natalino se divide em dois. Na noite do dia 24, há um carga enorme de emoção concentrada nas conversas com os voluntários, que ouvem os problemas, reconfortam, mas nunca dão palpites. A pessoa tem que achar o seu próprio caminho, só procuramos facilitar para que elas desabafem, assinala Brustolin. Passada a véspera de Natal, no dia 25, o sentimento é de frustração, de ter passado uma data especial sozinho ou repleto de angústias geradas no decorrer do ano.
Segundo a psicóloga Lola Margarete Ribeiro, 41 anos, dezembro representa uma válvula de escape para tanta carga de emoção acumulada ao longo do ano. É final de ano, todo mundo está esgotado. Quando chega dezembro, as pessoas promovem um balanço do que fizeram, explica. Quem é mais otimista, vai fazer uma reflexão mais positiva. Os mais introvertidos ficam mais melancólicos, compara. Uma das alternativas é não ficar sozinho no Natal. A melhor saída é o contato com pessoas que possam te descontrair, aconselha.


