Mauricio Della Barba
De Londrina
Paulo Wolfgang

A FELICIDADE Adir Júlio Ávila, após transplante de córnea: ‘‘Voltei a ser feliz graças à família do doador’’

César Augusto

A ESPERANÇA José Alves de Souza, que aguarda oportunidade de receber novo coração: ‘‘Se Deus quiser vai acontecer’’

Salvar vidas. Esta é a proposta da 1ª Campanha Nacional de Doação de Órgãos, que começa no próximo dia 27 e vai até o dia primeiro de outubro. Com o slogan ‘‘Seja um doador! Informe sua família’’, a campanha tem como principal objetivo fazer com que os doadores voluntários tomem a inciativa de informar publicamente a sua intenção.
‘‘Para ser um doador, não é preciso fazer mais nada hoje em dia. Basta avisar toda a família’’, diz a chefe da Divisão de Assistência à Saúde (DAS) da 17ª Regional de Saúde em Londrina, Rosilene Aparecida Machado. Em muitos casos, a família, por não saber, não autoriza a retirada dos órgãos de parentes recém-mortos.‘‘É comum a família não saber da intenção do falecido em doar seus orgãos. Se a família não autoriza, não se pode aproveitar os órgãos, mesmo que exista um documento comprovando a vontade’’, diz Rosilene.
Dados recentes da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) mostram que 50% das pessoas não efetivam a doação por falta de autorização da família. Outros 43% são casos contra-indicados ao transplante e 7% são de mortes encefálicas não confirmadas.‘‘Cada pessoa que morre pode ajudar a sete outras novas vidas’’, informa.
No Brasil, em cada um milhão de habitantes, três se tornam doadores. Nos Estados Unidos são 21 por milhão e na Espanha, 29. No caso dos transplantes de rins, as doações alcançam a metade da demanda no País. Mas com relação a fígado, coração, pulmão e pâncreas a situação é muito pior.
‘‘É difícil esperar, mas fazer o quê. Estou disposto a fazer tudo que é possível para viver mais’’, diz José Alves de Souza, de 57 anos, que está na fila de espera há um ano e meio por um transplante de coração. Aposentado e portador da doença de Chagas, José busca na fé divina uma esperança. ‘‘Vou colocar agora um marcapasso, mas é só para ajudar o coração. Se Deus quiser, vou ganhar um órgãonovo’’, diz ansioso.
Para o balconista Adir Júlio de Ávila, a espera pelo transplante demorou, mas valeu a pena. Ávila perdeu 90% da visão depois de pegar herpes no olho esquerdo. Um telefonema de madrugada, às vespéras de completar 30 anos, veio como um presente, acabando de vez com a angústia do balconista. ‘‘A ansiedade era muito grande. Eu chegava a sonhar que estava sendo transplantado’’, diz. Foram seis anos aguardando a nova córnea. Agora, Ávila pretende conhecer a família do doador. ‘‘Sei que é difícil doar os orgãos de alguém que se ama. Quero agradecer pessoalmente a família e mostrar o quanto me fizeram feliz’’, diz.
O preconceito, a falta de informação e o medo são as principais causas que afastam os possíveis doadores de órgãos. Além disso, como explica Rosilene, existe uma precariedade em toda a estrutura de doação e transplante de órgãos.‘‘Muitos órgãos não são aproveitados por falta de hospitais melhor aparelhados’’, revela. Alguns hospitais não conseguem diagnosticar a morte encefálica (morte cerebral), única situação que possibilita o aproveitamento dos órgãos.‘‘Na morte encefálica, o coração continua funcionado, e por isso a família nega a doação. Esperançosos, acreditam em um milagre’’.
Outro motivo apontado por famílias que rejeitam a autorização da doação é uma possível mutilição do cadáver. ‘‘Por lei, o corpo deve ser totalmente restituído. Além disso, a Central de Transplantes acompanha todo o processo, inclusive dentro do centro cirúrgico’’, diz Rosilene.
A chefe do DAS também explica que não é necessário morrer para salvar uma vida. ‘‘Rim, fígado e medula podem ser doados em vida. Não há problemas para quem doa. No caso do rim, em três meses, a pessoa já fica estabilizada’’, diz.
Na semana da campanha, a Central Regional Norte de Transplantes (CRNT), apoiada pelas Secretarias Estadual e Municipal da Saúde e Regionais da Saúde, vão desenvolver atividades de conscientização popular. Além de uma barraca no calçadão, palestras serão promovidas nos Hospitais de Londrina, Cornélio Procópio, Arapongas, Apucarana, Jacarezinho e Ivaiporã.

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