Preconceito, medo, falta de qualificação. Imagine ter que vencer todos estes obstáculos antes de conseguir um emprego. Pois é este o cenário geralmente enfrentado pelos ex-presidiários quando buscam a reinserção social. Em um País onde o desemprego é crescente também entre os que têm ‘‘a ficha limpa’’, uma das poucas alternativas que restam é a informalidade.
  ‘‘Temos um convênio com o Sine (Sistema Nacional de Emprego), através da Secretaria do Trabalho, para fazermos o encaminhamento dos candidatos a emprego, mas apenas em torno de 1% consegue colocação com carteira assinada’’, revela o diretor do Patronato Penitenciário de Londrina, Tadeu José Migoto.
  Ele define a tarefa de conseguir um trabalho depois de sair da prisão como ‘‘um drama’’, e revela que a reincidência no crime por parte de pessoas que já estiveram detidas é de aproximadamente 10%. ‘‘Já entre as pessoas que recebem penas alternativas – e que portanto não chegam a ficar presas – este índice cai pela metade’’, lembra.
  Estes dados, segundo Migoto, mostram a ‘contaminação’ pelo crime que ocorre dentro do sistema prisional. ‘‘Muitos, ao saírem de lá, passam a cometer delitos que não cometiam antes. Daí a importância das penas alternativas para os crimes não hediondos’’, defende.
  O motoboy Pedro (nome fictício), 31 anos, é um exemplo de quem está conseguindo dar a volta por cima, mas graças à ajuda de amigos. ‘‘Depois que saí da prisão, fiquei parado só no primeiro mês, meio perdido. Depois já comecei a trabalhar e hoje tenho três empregos.’’ Pedro admite a dificuldade em driblar o preconceito: ‘‘Infelizmente, se a gente fala que ficou preso, ninguém dá emprego, então tem que omitir, ou então procurar os amigos, que conhecem a nossa história e confiam na gente’’,
afirma.
  Segundo o motoboy, a prisão oferece de tudo, e depende de cada um definir o que vai levar dali. ‘‘Eu tentei me apegar às coisas boas. Os sete anos que fiquei detido são uma página que hoje eu quero virar. Perdi muita coisa boa enquanto estava lá, como o crescimento do meu filho, e não quero voltar.’’
  Edson Facundo Tiba, 43 anos, também não encontrou o emprego dos sonhos ao sair da cadeia, mas atualmente sente-se satisfeito com o que faz. Ele conta que passou uns três anos ‘‘batendo a cabeça’’ antes de começar a trabalhar como voluntário na Associação Londrinense Interdisciplinar de Aids (Alia). Hoje, 11 anos depois de ter cumprido pena em vários presídios do Estado e de ter sofrido todo tipo de discriminação por ser soropositivo, ele é um dos coordenadores do Núcleo Londrinense de Redução de Danos
(Repare).
  ‘‘Gosto do que faço, e sei que sirvo de exemplo para várias pessoas.’’ Para Tiba, o trabalho junto aos moradores de favelas, assentamentos e dentro da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL) garantem que ele fique longe do crime. ‘‘Convivo com pessoas que confiam em mim, eu não quero decepcioná-las.’’
  O período crítico de readaptação ainda está sendo vivido por Cristiano Custódio, 25 anos, que ficou detido 2,2 anos por tráfico. Ele deixou para trás os portões da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL) há um mês, e até agora o máximo que conseguiu foi fazer uns bicos de mecânico com o irmão. ‘‘Já tentei emprego em umas cinco ou seis empresas, mas ninguém me aceitou. Acho que vou ter que esperar completar os nove meses para limpar minha ficha’’, diz, revelando que ainda está em fase de curtir a possibilidade de andar a pé ou de bicicleta por toda a cidade. ‘‘Não quero nem saber de pegar ônibus’’, brinca.

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