O casal de comerciantes Helena e Nelson Ferreira Lima, de Jaguapitã (Norte), ainda se emociona ao falar da experiência vivida há menos de duas semanas, quando a família experimentou a indesejável sensação de acordar com a presença de ladrões dentro de casa. Há 30 anos eles mantêm um supermercado no município de aproximadamente 12.256 mil habitantes, e já sofreram três assaltos. Desta vez o prejuízo material foi de R$ 20 mil em dinheiro e mais as joias mantidas em casa. O prejuízo emocional, porém, não tem como estimar. Um dos filhos do casal até hoje não sai sozinho de casa, devido ao trauma de ter vivenciado o assalto anterior.
  Para o comerciante, se a criminalidade continuar no atual ritmo entre a juventude, daqui a uns cinco anos a situação estará insustentável. ‘‘A lei tem que mudar. Crianças e adolescentes podem ficar por aí, dormindo nas ruas e se drogando, mas não podem trabalhar. Nos últimos oito meses devem ter morrido uns cinco adolescentes na cidade por acerto de contas’’, calcula Lima.
  Ele afirma que o número de policiais na cidade é insuficiente para o nível de violência local. Segundo o comerciante, vários outros estabelecimentos já sofreram assaltos recentemente. Um deles é a única lotérica da cidade, invadida por assaltantes duas vezes no último mês de novembro.
  O delegado de Jaguapitã, Roberto Fernandes Lima, admite que a falta de efetivo policial agrava a situação do município. ‘‘Temos quatro investigadores, que atualmente têm que exercer a função de carcereiros. Na Polícia Militar só há dois policiais para atender toda a cidade. Se vier um chamado de qualquer região, as outras ficam desguarnecidas’’, revela Lima.
  Segundo ele, a esperança é que a maioria dos 500 policiais que estão prestes a sair da Academia da Polícia Civil sejam alocados no interior. ‘‘Teria, no mínimo, que dobrar o efetivo, porque boa vontade para resolver os crimes a gente tem, o que falta é mão de obra. Se este governador não se sensibilizar para a situação enfrentada no interior, vamos perder as rédeas’’, argumenta o delegado.
  Na pacata Rancho Alegre (Norte), município de 3.955 habitantes, a violência também começa a dar as caras. No dia 21 de dezembro a única lotéria foi invadida por dois homens armados, que levaram todo o dinheiro do cofre e roubaram os clientes. Eles chegaram à cidade de moto, a população estranhou a presença dos estranhos, mas nada foi feito para impedir que eles agissem. ‘‘Faltam policiais, e os que têm não fazem rondas constantes no comércio’’, reclama a proprietária da lotérica, Genilda de Souza.
  Em um dos bairros da cidade, a população se uniu para pagar um vigia que faz ronda durante a noite pelas ruas. ‘‘Nos últimos anos a gente não tem tido mais sossego. Nossa casa foi roubada duas vezes. Rancho Alegre não é mais a mesma’’, atesta uma moradora que prefere não se identificar. Ela conta que não deixa as três filhas adolescentes sozinhas em casa. ‘‘Quando saímos para trabalhar, elas ficam na casa de parentes.’’ (S.L.)

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