Se anos atrás os usuários de maconha faziam seu baseado com papel comum ou guardanapo de boteco, o cigarro de hoje ganhou mais requinte. Comprado facilmente em postos de gasolina, tabacarias, bancas de revista e no Camelódromo, a maioria dos ''rolling smoking'' ou ''cigarette paper'' - papel de enrolar cigarro - é feito a partir das fibras do cânhamo, oriundo de uma planta do gênero Cannabis, o que, segundo consumidores, garante um baseado mais autêntico, sem a interferência do sabor de outras substâncias.
Tanto que as marcas mais conhecidas no mercado vêm com o selo ''Pure Hemp'', que traduzido para o português significa ''maconha pura''. Além do nome sugestivo, tem um custo acessível, em torno de R$ 5, em média, para cerca de 30 folhas.
As folhas são muito comuns nas rodas de maconha mais elitizadas. ''O Pure não queima a garganta como o papel normal e já vem no tamanho do baseado. Ele enrola melhor e, por ser feito de maconha, o cigarro fica puro'', conta César (nome fictício), de 22 anos, ex-usuário de drogas.
Diante do relato do ex-dependente, fica a dúvida: se no Brasil tanto o uso quanto o transporte e o plantio da maconha são considerados crimes, como fica a comercialização de produtos que usam a fibra da planta em sua composição? Isso porque, mesmo que seja o público alvo, a princípio, a finalidade do produto não seria para o uso da maconha, mas para qualquer tipo de fumo.
Os produtos aos quais a reportagem teve acesso são fabricados na Espanha, mas distribuídos por uma empresa brasileira com sede em São Paulo. Durante várias vezes a FOLHA ligou e deixou recados com a secretária para falar com o responsável, mas não obteve retorno. Em uma das tentativas, o diretor-geral, que não se identificou, chegou a atender, porém disse que não poderia dar entrevista, pois estava em uma reunião. Depois disso, o celular ficou desligado.
Argumento frágil
Segundo o delegado da Polícia Federal em Londrina, Pedro Paulo de Figueiredo, o produto poderia ser apreendido se fosse comprovado que é fruto de contrabando - com entrada no país sem permissão - ou descaminho - quando não se paga imposto. ''Mas para o produto ser ilegal no país e enquadrado como entorpecente, por exemplo, o laudo pericial deve dizer que este causa dependência física ou psíquica.''
Assim como o papel que é feito da fibra do cânhamo, ele lembra que outros produtos importados têm a mesma origem, como camisetas, bonés, tênis. ''A fibra em si não causa dependência. Isso é que tem que ficar claro. Mas há a questão da apologia ao uso da droga presente nestas mercadorias. Entretanto, esse argumento é frágil para alguém responder criminalmente'', explica.

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