Faça chuva ou faça sol, lá está um senhor de longos cabelos e barbas brancas, fazendo gestos largos com os braços entre as duas pistas da Rua Nilson Ribas, no Jardim Champagnat (Zona Oeste de Londrina). A cena se repete em pelo menos quatro momentos do dia, mas já não surpreende os alunos da Escola Estadual Doutor Gabriel Carneiro Martins, que transitam pelo local. ''No começo todo mundo ficava zoando, gritando 'olha o papai noel', mas agora a gente sabe que ele está fazendo um trabalho importante'', relata a aluna Francielly Nascimento, 12 anos.
O ''bom velhinho'' é Antônio Dias Salvador, 73 anos. Há cerca de um mês, ele controla o trânsito em frente à escola, nos horários de entrada e saída, para permitir a travessia segura dos estudantes sobre a faixa de pedestres. Mais do que sua aparência, o que chama a atenção é a maneira como Salvador foi parar nessa função. ''Um dia ele nos procurou dizendo que queria colaborar de alguma forma. Como temos um problema muito sério de trânsito aqui, ele acabou servindo como um 'guarda', totalmente voluntário'', conta a diretora da escola, Glória Cazarin Sodré.
Salvador não recebe dinheiro algum pelo trabalho. Diz que não gosta de ver coisas erradas e, sobretudo, se preocupa com a educação e a segurança dos jovens. ''Eu passava por ali todos os dias e via que era preciso fazer alguma coisa para evitar acidentes'', explica.
O local tem trânsito intenso de veículos e é mal sinalizado. O problema já trouxe consequências como o atropelamento que afastou das aulas a aluna Júlia, 12 anos, por mais de dois meses. ''Acho que tanto ela quanto o motorista se distrairam e acabou acontecendo o acidente. Minha filha fez duas cirurgias e até agora está tendo acompanhamento para evitar complicações'', conta a mãe de Júlia, a funcionária pública Sueli Montazzolli Silva, 43 anos. Antes da reportagem, Sueli não sabia que o trabalho do 'guarda de trânsito' era voluntário. ''Achei que era contratado da escola. É muito bonito isso que ele está fazendo'', surpreende-se.
A descoberta também foi recente para a esposa do voluntário, Tereza Nunes Salvador, 74 anos. ''Fiquei sabendo há alguns dias que ele estava 'apitando' por aí. Ele faz tudo pela própria cabeça, nem consulta ninguém'', reclama. O casal mora a uma quadra da escola. O jeito independente de que fala a esposa de Salvador permeou toda a sua vida profissional. ''Nunca gostei de ter patrão, de ser mandado. Mas tenho um ofício: sou pintor de automóveis, embora não exerça mais'', esclarece.
Nascido em Araraquara (SP), Salvador nunca contribuiu para a Previdência e hoje conta com os filhos para se sustentar. Em compensação, coleciona uma lista de trabalhos voluntários que, segundo ele, já lhe renderam até uma indicação para cargo político em Brasília. ''Gosto de acompanhar, de ver os erros que existem na política, mas nunca quis ocupar cargo nenhum'', argumenta. Extremamente religioso, ele já trabalhou junto à Congregação dos Marianos, visitando e ajudando famílias pobres.
Na escola, o voluntário afirma que seu trabalho é provisório, até que a direção ou o Estado contratem um guarda de trânsito. Mas ele já pensou no próximo passo que dará em benefício da sociedade: ''Quero falar com o secretário de Educação, pessoalmente, e se preciso vou até Curitiba. Quero dizer a ele que é preciso chamar os pais de alunos para conversar, porque é deles que vem a maior educação. Na escola, a gente só aprende a ler, escrever, e se preparar para uma profissão. O que sou aprendi com meus pais''.

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