Papai Noel existe
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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 

Cambé - Papai Noel existe? Quem deixaria de acreditar na existência do bom velhinho ao ver os 250 alunos da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Cambé (Região Metropolitana de Londrina) recebendo os presentes do "Papai Noel dos Correios"? Nesse projeto as cartas dos alunos com os pedidos de presentes são adotadas por padrinhos. Vale lembrar que a lenda do Papai Noel é baseada na vida de São Nicolau Taumaturgo, um bispo conhecido por sua caridade e afinidade com as crianças e que ia deixando moedas na residência das pessoas mais necessitadas. O projeto dos Correios, de certa forma, resgata o ideal de São Nicolau.
A vestimenta de inverno do velho Noel foi mantida durante a visita à Apae. No entanto, se a lenda do Papai Noel diz que ele circula em um trenó com renas, na entidade ele chegou em uma caminhonete, talvez porque tenha enfrentado a terra roxa da região. A chegada do Papai Noel na quadra esportiva foi em grande estilo, com direito a trilha sonora natalina e buzinaço, na companhia de Mamãe Noel e de suas ajudantes. Todos os alunos receberam a comitiva com muitas palmas e gritos de alegria. Eram Déboras, Éltons, Vandersons, Josianes, etc. Centenas de pessoas na expectativa de serem agraciadas por presentes.
Logo o sujeito de barbas brancas e de roupa vermelha sentou-se em sua poltrona e passou a receber os alunos um a um para entregar os presentes. Por baixo da indumentária natalina estava na realidade uma mulher, a funcionária da escola Eliane Amaral. "É uma emoção muito grande e gratificante", ressaltou. Pouco a pouco os estudantes foram recebendo seus pacotes. Ao desembalá-los demonstraram toda a satisfação de serem presenteados.
Bruna Abramos, de 24 anos, estuda na Apae desde os 4 anos de idade. Ela achou ótimo a vinda do Papai Noel para a escola. Embora tivesse pedido uma blusa e recebido um perfume, ela declarou que estava muito feliz com o que ganhou. "O Papai Noel significa o nascimento de Jesus Cristo. Eu desejo toda a felicidade do mundo para as crianças", destacou Bruna.
A professora Eliane Cerato Hernadez trabalha há 29 anos na Apae e, enquanto concedia a entrevista, era interpelada por alunos que queriam mostrar o que tinham ganhado. Todos queriam dividir sua alegria de terem sido presenteados. "Um rádio, que coisa linda! Era o que você queria, né?", dizia ela a um dos que a abordou. Ela relata que a emoção é muito grande. "A gente tem eles como filhos. É uma família. Estou muito emocionada e não há palavras para descrever essa alegria", declarou em meio as lágrimas. Ela ressaltou que a Apae de Cambé tem alunos com mais de 60 anos e que acreditam na existência de Papai Noel.

Como duvidar disso ao escutar a estudante Caprice Aparecida Leszyuski, de 26, que pediu e ganhou o presente que queria: uma camisa do Flamengo. Questionada sobre o motivo do pedido, ela contou que em 2016 um amigo dela morreu por problemas no coração. "Ele era flamenguista, então essa camisa tem um significado muito grande para mim", declarou.
O diretor pedagógico da Apae de Cambé, Luciano Ribeiro Cil, disse que para muitos deles este será o único presente de Natal. "Entramos em contato com os Correios e eles de pronto abraçaram a nossa escola. Foi uma alegria muito grande", destacou. Como a grande maioria dos alunos não sabe escrever, muitos verbalizaram seus desejos para os professores, que repassaram para o papel. Alguns alunos desenharam seus objetos de desejo. "Participaram 256 alunos e todas as cartas foram atendidas. É a primeira vez que participamos desse projeto dos Correios", destacou.
Segundo o gerente da agência dos Correios de Cambé, Reinaldo Malagutti, essa campanha existe há vários anos e a cada ano são escolhidas uma ou duas escolas para receberem os presentes. "Logo quando fomos procurados pela Apae, a gente sentiu aquela sensação gostosa de poder participar. É difícil de descrever o sentimento. A Apae tem necessidade maior e a gente fica até abobado ao ver tudo isso, mas é emoção pura. É muito bonito ver essa alegria no rosto delas, independente de cor, raça e sexo", alegou.
A representante do clube de mães da Apae, Cirlene de Almeida, agradeceu a iniciativa. "Frequento a Apae há 12 anos. Minha filha Samantha possui deficiência neuromotora e chegou aqui com um ano. A gente só tem a agradecer os Correios, porque fizeram um bem muito grande para nossos filhos. As crianças precisam dessa alegria natalina", conta.
Segundo Cirlene, as pessoas com deficiência não estão para serem escondidas, mas para serem vistas. "Que os empresários possam refletir e olhar para nossas crianças com outros olhos, pois eles devem ser mais integrados com a sociedade. As pessoas olham com dó e com pena, mas eles não precisam disso. Eles precisam ser acolhidos. Precisam de amor", declarou. Talvez tenha sido esse amor que mobilizou São Nicolau a sair pelas ruas distribuindo moedas no século 3. O mesmo amor que nos faz acreditar que Papai Noel existe, mesmo que muitas vezes ele não apareça ou esteja disfarçado.


