Panetones com dinheiro agitam bairro
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quarta-feira, 25 de novembro de 1998
Áureo Nogueira 
Papai Noel antecipou a visita ao Jardim Nossa Senhora da Paz (antiga Favela da Caixa Econômica Federal), na zona oeste de Londrina. Na tarde de sexta-feira, dois homens desconhecidos, aparentando mais de 60 anos, entraram no bairro em uma Belina velha. Pararam na Rua Nossa Senhora do Socorro, na altura do número 165, e deram uma caixa de panetone para um garoto, recomendando que dividisse com as pessoas que estavam na calçada. O outro senhor desceu do carro e entrou em duas casas do outro lado da rua, dando uma caixa de panetone para cada uma das famílias. Assim como chegaram, os desconhecidos sumiram: misteriosamente.
Para surpresa dos moradores, ao abrirem a caixa do panetone, encontraram um envelope, com a inscrição Jesus Cristo te ama e um pacote de notas de cinquenta reais. Num dos envelopes havia R$ 2.200,00. No outro, 2.350,00. Dizem que no terceiro envelope o total era de R$ 3.500,00.
Os presentes provocaram rebuliço no bairro. O clima foi de euforia e frustração; curiosidade e esperança. Somente o presente entregue na rua (com a quantia de R$ 2,2 mil) foi dividido entre os vizinhos. A desempregada Lucilene Vieira, 18 anos, mãe de um menino de um ano, estava na calçada e se encarregou de distribuir o panetone. Quando abriu o pacote, percebeu o envelope com o dinheiro dentro.
Como o homem pediu que distribuísse, comecei a dar uma nota para cada pessoa que estava aqui, disse Lucilene. Achei que fosse dinheiro falso, mas, mesmo que não achasse, iria distribuir entre os vizinhos. Faria isso mesmo que não houvesse o pedido do homem da Belina, assegurou.
Mas as famílias que receberam o presente dentro de casa não fizeram a distribuição. Inicialmente, Valmir da Silva Rocha, o Mineiro, 55 anos, pedreiro desempregado há três anos, negou que soubesse do presente. Mas depois de alguma insistência, disse que havia R$ 2.350,00 no seu envelope e que pagou as contas atrasadas - água e luz estavam cortadas - e ajudou os filhos, que estão todos desempregados.
O homem não me pediu nada. Estou desempregado, assim como meus sete filhos. Acho que distribuindo o dinheiro com minha família usei bem o presente mandado por Deus, disse o desempregado, demonstrando constrangimento com a cobrança dos vizinhos não agraciados. Se soubesse que o caso iria criar este fermento na vila não teria aceitado o presente.
Os moradores não conseguem explicação para o presente que caiu do céu, mas o assunto está em todas as rodas. Quem e por que distribuiria dinheiro num bairro tão carente? Por que tanto dinheiro para apenas três escolhidos. Por que os escolhidos foram esses e não outros? O que a Rua Nossa Senhora do Socorro tem que outra rua do bairro não tem? Os enviados vão voltar? Quando? Para quem?
Ninguém encontra as respostas, mas todos mantêm a esperança de que Papai Noel retorne ainda neste Natal.


