Preocupação e observação constante do corpo, obsessão com sintomas ou defeitos físicos irrelevantes, medo irracional da morte e até descrença nos diagnósticos médicos são comportamentos que lembram atitudes de pacientes com suspeita da gripe A, que diariamente lotam unidades de saúde. Mas, na verdade, são sinais de um transtorno pouco conhecido pela população: a hipocondria, que pode ser agravada em casos de pandemias, como a da gripe A.
Bastante confundido com o transtorno obsessivo compulsivo, com a depressão e até com as crises de ansiedade, a hipocondria é um estado psíquico que se caracteriza pela crença infundada de que se é portador de doença grave. Pode se manifestar como um fator psicossomático ou quando o indivíduo percebe qualquer transformação no organismo que provoca incômodo, causando empobrecimento da vida da pessoa.
Especialista em análise do comportamento, a psicóloga Simone Martin Oliani explica que comportamentos obsessivos compulsivos tendem a piorar em casos de disseminação generalizada de uma doença, como acontece atualmente. ''Excesso de informação também contribui para pensamentos invasivos'', opina Simone, citando o aparecimento dos surtos de limpeza, com a higienização constante das mãos e uso de máscara pela população.
Segundo a psicóloga, de acordo com a descrição do paciente hipocondríaco, o transtorno pode apresentar três comportamentos distintos: fóbico, obsessivo compulsivo ou depressivo. No primeiro, o indivíduo simplesmente não quer ter problemas e evita consultar médicos para prevenir a ansiedade, chegando até a negligenciar a saúde.
Já os obsessivos compulsivos têm pensamentos e sensações que os levam à busca constante por informação sobre as doenças, seja com os médicos, amigos e até na internet. ''Eles precisam de asseguramento constante'', assinala Simone. Segundo ela, os hipocondríacos depressivos são aqueles que já estão convencidos de que têm uma doença crônica e se sentem culpados, pois acreditam que estão doentes por negligência própria.
''Hipocondríacos obsessivos compulsivos são os mais evidentes. Sentem-se incomodados e angustiados o tempo todo, lavam as mãos e tomam remédios constantemente'', aponta a psicóloga, lembrando que a pista para detectar o transtorno é o comportamento exacerbado e disfuncional. ''Medo de adoecer pode levar o indivíduo a ficar doente de verdade.''
Antes de julgar se um paciente sofre de hipocondria, é preciso analisar a história de vida do indivíduo para descobrir onde ele aprendeu a comportar-se de forma exacerbada e disfuncional. ''Supercuidado da família ou a negligência familiar para evitar doenças são parte do ambiente que favorece o transtorno'', explica a psicóloga.
De acordo com Simone, em média, 80% dos médicos já atenderam pacientes hipocondríacos em seus consultórios. ''Se não ouvem o que querem, mudam de médico'', alerta Simone. Segundo ela, o tratamento da hipocondria envolve terapia comportamental e, em casos mais graves, uso de medicamentos antidepressivos e ansiolíticos.
''A terapia também deve envolver o grupo familiar, que sempre reforça as queixas do indivíduo. No tratamento, a pessoa identifica se o pensamento ou sensação é real ou não e aprende a lidar com eles'', descreve a psicóloga, reforçando que os médicos devem ter cuidado ao dizer ao hipocondríaco que ele não está realmente doente.

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