Pancada de chuva consegue apenas assanhar londrinenses
Walter Ogama
De Londrina
Choveu ontem à tarde em Londrina! Os primeiros pingos começaram a cair na área central da cidade pouco depois das 14h20, após uma estiagem de cerca de dois meses. Tímidos, eles pipocavam e mal batiam no asfalto desapareciam. O sol forte impedia que eles deixassem no solo qualquer vestígio. Nada de chão molhado ou cheiro de água quando bate no pó! Enfrentavam também a concorrência das folhas e flores de árvores que, castigadas por um vento forte que começou de manhã, teimavam em deixar as calçadas imundas.
Mário de Paula, 36 anos, há seis deles na frente de trabalho da Prefeitura de Londrina como gari, por pouco não urrou de felicidade. Vassourão na mão, a pá prendida no carrinho, ele vinha rente à calçada que circunda a Concha Acústica, se debatendo com as folhas, os pedaços de papéis e as flores. Era uma varrida aqui e logo o vento espalhava tudo. Foi quando os pingos começaram. Mário se abrigou sob a marquise de um dos prédios do trecho, enquanto os pingos engrossavam e a chuva ficou com jeito de chuva forte.
Queria que chovesse mais. Mas, com certeza, a chuva vai chegar.
O gari tinha razão de reclamar. Tão rápida quanto veio, a chuva parou menos de 1 minuto depois de ter começado. Aqueles poucos segundos de pingos grossos caindo sobre a multidão que corta o Calçadão de um lado a outro foram de chuva com sol. Alguém, da porta de uma loja, lembrou de uma antiga crendice:
Chuva com sol! É casamento de viúva!
Uma mulher ainda teve tempo de abrir a sombrinha quando atravessou o Bosque, na área central da cidade. Ninguém teve tempo para censurá-la:
A senhora, carregando esse guarda-chuva armado, tinha que espantar a bendita!
Em alguns trechos da área central de Londrina o asfalto permaneceu molhado por poucos minutos, como acontece quando a chuva é boa e prolongada. Messias Bezerra, 55 anos, profissional de fotos instantâneas nas proximidades da Catedral Metropolitana, agarrou o seu equipamento pelo tripé e correu para um quiosque quando a chuva engrossou. No local, aproveitou para conversar:
Eu sou é lambe-lambe mesmo. Tenho 30 anos de profissão aqui em Londrina.
O termo vem da necessidade que os profissionais de antigamente tinham, de lamber o negativo para preparar as fotos três por quatro. Messias mudou-se para Jataizinho há cinco anos, para fugir do aluguel de Londrina. Todos os dias, ele deixa a sua casa, no Conjunto Pombal I, às 6h15, caminha cerca de 20 minutos até o ponto de ônibus e enfrenta viagem de 40 minutos até Londrina. Encerra o expediente às 17h40 e encara mais 40 minutos de ônibus e 20 de caminhada.
O Conjunto Pombal I não tem asfalto. Agora, com a estiagem, é só poeira. A mulher de Messias, Maria Aparecida, é que reclama da sujeira com o tempo seco. O lambe-lambe nem havia terminado de contar sua história quando a chuva parou e o sol, que disputou espaço com a chuva, reinou sozinho. As pessoas que saíram às portas das lojas para ver a chuva voltaram às suas atividades. Nas duas sorveterias, que lado a lado disputam fregueses na Avenida Rio de Janeiro, as pessoas se refrescaram, sem ligar para a dor na garganta, um resultado do tempo seco que causa irritação e alergia.
Nem cheiro de chuva ficou. Não choveu em Londrina! Apenas passou pela cidade um indício, uma possibilidade de cair água mais tarde. A meteorologia garante: ela está para chegar.





