César AugustoDe pai para filhoMichel ‘Babalu’ e Sidney ‘Chevrolet’: paixão une a família Quem vê Sidney Kikuche, 40 anos, de calça jeans, camiseta, boné, botina e alicate pendurado na cintura, pegando no pesado, não imagina que ele seja o mesmo brincalhão que sobe no picadeiro e faz a alegria, principalmente das crianças. A transformação só começa depois que todo o trabalho de montagem do circo e iluminação do espetáculo, do qual ele está diretamente ligado, fica pronto. Só então, é chegada a hora de vestir a roupa colorida e pintar o rosto com formas exageradas. Ele é o Chevrolet, integrante do trio de palhaços do Circo di Roma que estréia hoje na Cidade. Ele, Lagrimita e Babalu prometem boas gargalhadas para os espectadores.
Filho de mãe contorcionista e pai que foi motorista de circo e chegou a ser dono de um, Kikuche virou palhaço há 22 anos. A herança já foi passada ao filho mais velho, Michel, 19, que atua no picadeiro desde que começou a dar os primeiros passos e hoje faz parceria com o pai, vivendo o palhaço Babalu. Mas o pai, que pretende continuar a carreira até ter que se apoiar em uma bengala, não imagina o mesmo futuro para o filho. Michel divide sua participação no circo entre as palhaçadas com o pai e o globo da morte. O barulho ensurdecedor das motos e o perigo das manobras no globo, na opinião de Kikuche, parecem interessar mais ao filho.
Se depender do pai, a filha mais nova de Kikuche, hoje com dois anos e morando em Curitiba, também deverá conhecer a vida circense de perto. ‘‘O circo é uma escola por si só, não precisa de nenhuma faculdade específica para aprender. É uma atividade mundial e por isso tem um campo de trabalho que nunca termina’’, diz. Mesmo com as vantagens do circo, Kikuche acredita que todos os profissionais circenses devem cursar uma faculdade. ‘‘O estudo é fundamental, até para viajar com o circo para todo o mundo. Eu passei pela faculdade e meu filho também deve passar’’, conta. Kikuche é engenheiro elétrico e um pouco do que aprendeu na faculdade é aplicado na iluminação do circo. ‘‘Com o salário de palhaço dá para sobreviver. Mas eu não consigo passar o dia todo à toa, sentado, e acabo acumulando funções’’, afirma. ‘‘O amor à profissão de palhaço faz com que ela predomine. É a magia de ver o público sorrir’’
Chevrolet entra em cena quatro vezes por espetáculo. Numa delas, a apresentação é dirigida às crianças. ‘‘São brincadeiras mais suaves.’’ Na outra entrada é a vez dos adultos. ‘‘Aí uso bastante sátira, o show fica mais picante. Mas como as crianças hoje parecem mais espertas, elas acabam gostando também.’’ Em outra entrada, Chevrolet tem uma participação no trapézio. ‘‘No circo tem que ser coringa’’, resume.
No Circo di Roma, Kikuchi está há 10 anos. Ele e o fiho fazem parte de um grupo de 40 artistas do circo, pertencente ao empresário Roberto Robattini, que é tio de Kikuchi. Robattini também já foi o domador dos tigres, outra atração do di Roma. Há seis anos, a profissão foi passada ao filho Vitor Roberto Robattini. ‘‘O circo é uma herança. Está no sangue e passa de pai para filho. Por isso nunca morre’’, diz Kikuche. Segundo ele, o di Roma, que tem 26 anos, está indo para a terceira geração.
O fascínio de Kikuche pelo circo é tanto que ao se aposentar da vida de palhaço, ele pretende montar um bufet. ‘‘Nas festas de crianças, eu mesmo poderia animar’’, imagina.
Kikuche afirma que uma das maiores expectativas do público de um circo em qualquer cidade por onde passa são os animais. No Circo di Roma, há dois elefantes, tigres, pôneis, cavalos e um urso. A própria estrutura do Circo di Roma, é uma atração à parte. Trabalhada com luz negra, a lona, explica Kikuche, reproduz um céu estrelado, passando a sensação de assistir o espetáculo ao ar livre.

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