A mãe de Lili a deixa em casa com um homem e sai para trabalhar contente. Na escola, a professora percebe que ela está triste e pergunta o que há de errado. A menina conta que não gosta de ficar em casa sozinha com aquele homem. Preocupada, a professora conversa com a mãe da aluna, que questiona a filha. Lili então relata para a mãe que o tal homem a beija na boca e acaricia seu corpo sempre que a mãe não está por perto.
''Às vezes você não sabe como alguém que você conhece bem pode ser de verdade.'' Com a simplicidade de toda criança de nove anos, uma estudante da quarta série do ensino fundamental da Escola Municipal Dalva Fahl Boaventura, no Jardim Três Marcos (Zona Sul de Londrina), justificou o comportamento de adultos que praticam atos de violência contra crianças e adolescentes, durante a palestra que relatou a história de Lili para os alunos, na manhã de ontem.
Para o educador social Osni Damasio da Silva, do Centro de Referência Especializado em Assistência Social III (Creas III), a turma do quarto ano foi uma das mais tranquilas e bem informadas com a qual ele já trabalhou e a explicação é simples: como estão estudando os aparelhos reprodutivos masculino e feminino, o assunto sexo já foi bastante discutido entre os estudantes este ano.
Por isso foi tão fácil identificar o abuso sofrido pela personagem Lili, cuja história faz parte de uma cartilha distribuída aos alunos após a palestra. ''Aproveitamos a história para explicar as formas de abuso e reforçar que é imprescindível para a criança sempre contar tudo o que acontece para a pessoa em que mais confia'', comentou o educador. Este ano a equipe do Creas irá visitar 12 escolas, onde realizará palestras.
''Normalmente percebemos uma ou outra criança mais quieta e atenta durante a palestra. Então oferecemos a oportunidade delas conversarem conosco a sós, numa sala reservada na própria escola. Mas como criança tem dificuldade em falar, muitas acabam ligando depois'', citou Silva. Bastante informados, os alunos do quarto ano deram uma aula sobre o assunto na manhã de ontem.
''Se a Lili não contasse para a professora ia piorar mais a situação'', disse uma das estudantes. Ela lembrou que a mãe a ensinou a nunca sair em companhia de estranhos: ''A culpa é sempre do adulto, nunca da criança'', reforçou.
E, durante a explicação, as crianças dividiram várias histórias vividas por elas ou amigos e parentes, mas nenhum caso de abuso comprovado. Também nenhum aluno quis conversar em particular com os educadores do Creas ontem. ''Nesses casos, a ficha de notificação é importante. A escola pode preencher e encaminhar os dados para o Creas, que cuidará do caso, ou a professora pode retomar o assunto depois, de forma escrita'', assinalou o educador social.
''Hoje são várias as situações que precisam de identificação. Os casos são encaminhados principalmente pelas unidades de saúde, hospitais e escolas. Para isso existem as fichas de notificação, que informam não só casos de abuso sexual, mas também de violência psicológica e física'', comentou Osni Silva.
Ele ressaltou que a abordagem à família da vítima é feita sem pressa, para que o conselheiro não corra o risco de abordar justamente o agressor e expor ainda mais a criança. ''Mais cedo ou mais tarde chega o momento em que os pais ficam sabendo e as reações são diversas: tem mãe que fica revoltada, mas outras ficam do lado do abusador.''

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