Érika Pelegrino
De Londrina
‘‘Uma sociedade que tem que implorar pelas coisas que precisa não é forte. Ao receber do governo aquilo que está exigindo, o cidadão torna-se cliente do governo.’’ A afirmação é do presidente da Fundação Kettering, David Mathews, que proferiu palestra ontem em Londrina sobre ‘‘Democracia: a questão da participação pública’’.
Presidente da Fundação há 15 anos, Mathews falou para o público que compareceu à noite no anfiteatro maior do Centro de Ciências Humanas (CCH), no câmpus da Universidade Estadual de Londrina (UEL), e também lançou o livro ‘‘Existe público para a escola pública’’.
Segundo ele, a Fundação Kettering tem escritórios em Nova York, Washington e Dayton, nos Estados Unidos, e vem desenvolvendo pesquisas com o objetivo de identificar os problemas em torno da democracia. Uma das conclusões é sobre a necessidade do cidadão ser responsável e atuante para poder melhorar o funcionamento da democracia.
Mathews disse que pensava-se que o governo perguntando ao cidadão o que ele queria era uma forma de torná-lo atuante. Mas viu-se que não. Outra forma cogitada era o cidadão exigir aquilo que ele queria.
Um novo significado de participação, acrescentou, é o cidadão agir, fazer, trabalhar, tomar atitudes em conjunto para resolver os problemas da comunidade. Mathews cita o exemplo da criminalidade nos Estados Unidos. Ele afirma que mesmo com um grande e bem distribuído efetivo policial, o que fez a diferença no combate à violência foi a ação da sociedade.
As pessoas em suas vizinhanças assumiram a responsabilidade pela segurança dos bairros onde vivem e passaram a caminhar a noite nas ruas, denunciar ao ver um traficante, agir ao ver uma pessoa pedindo socorro. ‘‘Sem isso o efetivo policial, por maior que seja, não faz nenhuma diferença’’, afirmou.
Mathews disse que a democracia moderna existe em todos os lugares e cita a Rússia. ‘‘Um país vai continuar a ser pobre se não tiver o cidadão envolvido no processo.’’ Ele mencionou um estudo feito pelo professor Robert Putnam, que compara a parte norte central e sul central da Itália e exemplifica a idéia do cidadão atuante.
A parte norte central é uma das regiões mais prósperas do pais e talvez do mundo, conforme explicou Mathews, e tem um governo efetivo com uma sociedade civil forte, que tem o hábito de trabalhar em conjunto. Já o sul central é o oposto. A conclusão da pesquisa é de que a parte norte central não tem uma sociedade civil forte porque é rica, mas é rica porque tem uma sociedade civil forte.
‘‘O estudo demonstra que a força da sociedade civil é uma variável crucial, lógico que não é um fato isolado’’, esclarece Mathews. A Fundação Kettering fez um estudo semelhante e chegou à mesma conclusão. Tupelo, no estado do Mississipi (EUA), foi alvo do estudo por ser uma das cidades mais pobres de um dos estados mais pobres dos EUA.
‘‘Atualmente é uma das cidades de maior progresso a despeito de não ter recurso natural’’, contou. Isso aconteceu porque as pessoas organizadas começaram a tomar decisões e trabalhar para melhorar o lugar onde vivem. A pergunta que fizeram, segundo o presidente da fundação, era ‘‘o que podemos fazer para melhorar nosso bairro’’, e não ‘‘o que o governo pode fazer para melhorar nossas condições’’.
‘‘Mas isso levou 40 anos para acontecer e as mudanças começaram a aparecer há 10 anos’’, conforme Mathews, o que mostra que tornar cidadãos responsáveis e atuantes é um processo lento e não depende de um grande projeto de educação ou de uma intenção pré-estabelecida.
‘‘As mudanças podem começar a partir de uma ação simples e pequena como uma pessoa que resolve limpar uma praça e plantar flores. O que importa é que a partir daí estas pessoas estabelecem o hábito de tomar decisões em conjunto e trabalhar a partir destas decisões’’, explicou. Esta forma de ação, segundo dados de pesquisas da fundação, são válidas para saúde, educação e todas as áreas que fazem parte da vida do cidadão.
Para que a democracia funcione melhor, acrescentou Mathews, é necessário ter cidadãos trabalhando, produzindo. ‘‘A espécie humana só sobreviveu devido ao processo de colaboração, pois percebeu que os problemas não podem ser resolvidos sem atuação coletiva. Era verdade, no começo da história, e é verdade agora’’, afirmou.
A Fundação Kettering estuda apenas os Estados Unidos, mas existem pelo menos outros 30 países com atividades semelhantes, incluindo o Brasil. Em Londrina, o Fórum de Cidadania cumpre um papel parecido com o da entidade norte-americana. ‘‘Os países estão tentando entender como fazer o cidadão responsável e atuante’’, resumiu David Mathews.Presidente de fundação dos EUA mostra como sociedades evoluiram resolvendo seus problemas
Arquivo FolhaMilton DóriaUM EXEMPLONo dia 6 de novembro de 1998, moradores do Jardim Nova Conquista (zona leste de Londrina) fizeram um mutirão para limpar córrego; ao lado, David Mathews, presidente da Fundação Kettering

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