Curitiba - Nunca ninguém havia falado com ela daquele jeito. Quando a moça alta entrou no caixa eletrônico balbuciando algumas palavras com tom de resmungo, Amália logo prestou atenção. Era difícil ver pessoas comunicativas nessa cidade, ainda mais tendo a abertura e o desprendimento de falar sozinha. Quando ela veio do Norte do Estado não poderia imaginar que o simples gesto de falar com estranhos seria um dos maiores entraves de sua adaptação ao novo estilo de vida.
''Este mês está completando 20 anos que cheguei aqui'', refletia enquanto esperava o ônibus para ir ao banco receber a pensão que o marido deixara. Aquele era um dia especial. Após o recebimento, Amália aproveitava para passar na igreja. Falava com Deus e tentava uma aproximação com as pessoas que lá estavam. Sempre a mesma rotina e sempre a mesma decepção. Apressados, os colegas fiéis muitas vezes acabavam esbarrando nela sem pedir desculpas, na porta da Casa do Senhor.
Amália não conseguia entender aquele comportamento generalizado na cidade. Até no elevador de seu humilde prédio (onde supostamente as pessoas deveriam falar mais sobre suas vidas e adentrar na vida alheia) o silêncio pairava.
A uma certa altura de sua vida, Amália entrou em crise com o comportamento arredio e frio da nova cidade. Contatou parentes e amigos afastados, na busca por uma nova oportunidade no interior. Mas a traição inesperada de uma irmã com seu marido, a impossibilitava de voltar à terra natal.
Mas naquele dia, naquela manhã no caixa eletrônico, quando ouviu os resmungos da tal moça ela olhou com seriedade. No mesmo momento em que reclamava da vida, Maria Helena deixou cair todos os papéis que carregava no chão. Com mais raiva ainda, a jovem que acabara de chegar do interior olhou para Amália e deu-lhe um sorriso espontâneo: ''Desculpe o meu mau humor. Mas é que estou aqui na cidade há poucos dias e tenho me sentido muito sozinha. Então peguei o hábito de falar comigo mesma.'' No mesmo momento Amália sorriu também para a futura nova amiga, juntou os papéis do chão, lhe entregou e rapidamente a convidou para tomar um café ali perto.
Daquele em dia em diante, tornaram-se inseparáveis. Quando Maria Helena ia ao banco Amália não precisava mais ir. Uma amiga quebrava o galho da outra. ''Pra que irem as duas?'' se perguntavam. Se ninguém falava com elas mesmo, era melhor continuarem publicamente caladas e deixar as longas horas de papo para o telefone. Calar-se era o melhor remédio.

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