Dezenas de nações estão unidas nas ruas de um bairro de Londrina, próximo à barragem do Igapó, na zona sul da cidade. Numa verdadeira lição de diplomacia, os moradores da Rua Itália nunca deportaram os colegas da Rua Albânia. O general Tito não conheceu a Rua Iugoslávia e não foi, tampouco, na Rua Romênia que Nicolau e Helena Ceauscescu foram fuzilados. Os habitantes das ruas Polônia e Áustria não têm o que dizer dos londrinenses da Rua Alemanha. Ninguém da Rua Canadá jamais acusou os açougueiros da Avenida Inglaterra de venderem carne de vaca louca.
Os londrinenses da Rua Turquia nunca anexaram as casas da Rua Chipre. Na Rua Israel não há Intifada porque os moradores nunca ocuparam territórios da Rua Jordânia. Não há, infelizmente, Rua Palestina no bairro Igapó. Nunca houve guerra fria e corrida espacial entre as ruas Estados Unidos e União Soviética. A foice e o martelo estão guardados em caixas de ferramentas nas casas das ruas Hungria e Ucrânia. Não há londrinenses fundamentalistas nas ruas Irã e Paquistão.
Logicamente, todos tomam banho na Rua França. No carnaval, os meninos da Rua Egito se fantasiam de múmias e se unem à garotada das ruas Escócia e País de Gales, que preferem o cavaquinho à gaita de foles. O sol não brilha à
meia-noite nas ruas Islândia e Dinamarca, mas não falta calor humano. Os londrinenses da Rua Grã-Bretanha parecem mais felizes do que foram Charles e Diana. Não há cassinos na Rua Monte Carlo e a princesa Sthephanie nunca foi vista esperando ônibus na Rua Mônaco. Quem seguir direto pela Rua Finlândia vai chegar na Avenida Paris, perto dali. A Rua Suíça demonstra neutralidade nas relações de vizinhança com as Ruas Suécia, Bélgica e Luxemburgo. Na Rua Portugal há casas brasileiras, com certeza. Os meninos da Rua Espanha brincam de Dom Quixote e continuam sonhando com moinhos de vento na Rua Holanda.
E a Rua China? Lá tem um muro coberto de hera, que não é grande como uma muralha e nem pode ser visto da Lua. Relativamente alto, o muro da Rua China oculta parte de eucaliptos, abacateiros, grevíleas e ciprestes. O muro só não oculta o pensamento do poeta: ‘‘Junto à minha rua havia um bosque / que um muro alto proibia / lá todo balão caía / toda maçã nascia / e o dono do bosque nem via.’’

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