Pais usavam filhos em rituais macabros
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quarta-feira, 25 de março de 1998
Lucinéia Parra 
O casal Nadir Ferreira da Silva, 27 anos, e Vicente José da Rocha, 40 anos, e a mãe-de-santo Geni Alves Bento, 36 anos, foram indiciados em inquérito policial acusados de maus-tratos aos filhos, curandeirismo e crime previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente por submeter criança ao vexame ou situações constrangedoras.
Os três são acusados de obrigar o filho de Nadir, o garoto A.F.S., 9 anos, de participar de ritual de curandeirismo usando roupas femininas e de forçá-lo a tomar catarro com areia. A.F.S. também disse que a mãe dele teria prometido à mãe-de-santo Geni Alves Bento que iria matá-lo para usar o sangue e o corpo dele em trabalhos de magia negra.
O casal e a mãe-de-santo foram presos no final da tarde de anteontem, em Sarandi (7 km de Maringá), e liberados ontem de manhã. Segundo o delegado José Aparecido Jacovós, a denúncia contra o casal e a mãe-de-santo foi feita na sexta-feira da semana passada, através de ligação telefônica. O denunciante teria revelado que Nadir estava obrigando o filho A.F.S. de participar de uma sessão de umbanda, no Jardim Independência.
Intimados para depor na delegacia no mesmo dia, o casal negou a denúncia e disse que não conhecia o terreiro de umbanda citado. Nadir e Vicente José da Rocha também teriam afirmado que o garoto sofria de problemas mentais.
Para confirmar a declaração de Nadir, Jacovós encaminhou o garoto ao Conselho Tutelar, pedindo exame de sanidade mental. No laudo emitido pela psicóloga, Silvana Aparecida Panaro, da Secretaria de Saúde de Sarandi, ela afirma que o menino demonstra convicção e senso de realidade em suas colocações. Afirma ainda que o garoto A.F.S. declara ser vítima de maus-tratos basicamente psicológicos (terrorismo, humilhação e imposição de sentimentos de menor valia) por parte da mãe e do padrasto Vicente José da Rocha.
O garoto também afirmou para a psicóloga que era levado com frequência ao centro de umbanda, no Jardim Independência, onde era obrigado por um certo Pai João a ingerir areia com catarro das pessoas que participavam da sessão.
Ainda conforme o laudo da psicóloga, o garoto parece nutrir sentimento de confiança e afeto apenas aos avós. Não há traços de idéias fantasiosas ou com interesse de prejudicar o casal, relatou a psicóloga sobre o perfil do garoto em relação a mãe e o padrasto.
A.F.S. também afirmou para a psicóloga que teria flagrado a mãe comentando pela janela da casa, com uma mulher de nome Geni, que iria matá-lo para fazer trabalho com o seu sangue e o corpo. De posse do laudo emitido pela psicóloga, Jacovós pediu a detenção do casal e da mãe-de-santo, na tarde de anteontem. O casal foi desmentido por Geni, que confirmou a presença dos dois e da criança no terreiro.
Sem alternativas, os três confessaram que o garoto participava das sessões vestindo roupas femininas com o objetivo de tirar sua rebeldia. Eles também afirmaram na delegacia de Sarandi que as orientações sobre o modo de agir com o menino partiram do espírito Pai João, que é incorporado pela mãe-de-santo Geni.
Os três foram liberados ontem porque não houve flagrante, mas o delegado pretende pedir a prisão temporária deles. O menino A.F.S e os irmãos dele, R.F.S., 5 anos, e A.F.S., 10 anos, estão sob guarda do Conselho Tutelar da Criança e Adolescente de Sarandi.


