''Quando você perde o cônjuge, fica viúvo. Se são os pais, fica órfão. Mas quando perde os filhos, é difícil encontrar alguma palavra no dicionário para descrever a sensação. O vazio é grande demais, tanto quanto a morosidade da Justiça.''
O desabafo foi feito ontem à tarde pela assistente social Lélia Luz Refundini, na Câmara de Vereadores de Londrina. Em janeiro de 1998, ela perdeu
cinco integrantes da família dois filhos, um cunhado, uma irmã e um sobrinho de um ano, além da empregada em um acidente de carro na PR-445, entre Telêmaco Borba e Ponta Grossa. Única sobrevivente da tragédia, Lélia se manifestou aos parlamentares contra a demora na solução do caso, cujo julgamento está marcado para a próxima terça-feira, em Tibagi (101 km ao norte de Ponta Grossa).
''A empresa pela qual trabalhava o motorista nunca nos procurou, nunca quis saber se precisamos de uma psicóloga, de uma assistente. Estou de pé graças ao meu trabalho'', disse Lélia, que desde o ocorrido formou uma nova família, com dois sobrinhos.
Assim como Lélia, outros dois pais de filhos vítimas de acidentes usaram o Plenário para protestar contra o que chamam de sensação de impunidade. Um deles é a auxiliar administrativa Ana Paula Colonheis, que em junho de 2001 perdeu os dois filhos atropelados na Avenida Inglaterra. A causa? Alta velocidade e avanço de sinal, confirmados por duas testemunhas. Tramitação da ação na Justiça de Londrina? ''A defesa do rapaz ainda não apresentou a terceira testemunha deles, e o processo está parado'', disse. Para ela, a perda dos dois únicos filhos Lucas, 7, e Amanda, 10 mudou para sempre a rotina de alguns dias do calendário. ''Meus dias das mães eu passo no cemitério, acendendo velas para eles''.
Situação judicial semelhante é a do funcionário público municipal Lucas Macedo. Ele não chegou a perder o filho, mas o acidente com Jonatan, 11, em dezembro de 2003, afetou drasticamente a rotina da família. Hoje o garoto tem apenas parte da capacidade cognitiva e se locomove com dificuldade por causa do motorista que o atropelou na Avenida Saul Elkind. O rapaz pagou fiança e foi posto em liberdade. Agora, Macedo quer ajudar outros pais na situação dele a cobrarem mais agilidade nesse tipo de processo. ''É um sonho nosso criar uma associação para isso'', comentou.
A presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Maria Ângela Santini (PT), adiantou que o grupo deve prestar todo tipo de auxílio à comissão defendida pelos pais. ''Em 15 dias devemos votar a criação do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos Humanos, que estabelecerá políticas para garantir que sejam cumpridas. É um passo.''

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