Um cartaz manuscrito colado na parede do Bar e Restaurante Paulistano, na Rua Santa Catarina, centro de Londrina, revela por entre as letras caprichosamente desenhadas uma história de luta, sacrifício e amor. ‘‘Aqui neste recinto tem um aprovado em direito noturno no vestibular de inverno da nossa UEL. Meu Filho’’.
O autor da mensagem é o comerciante Jorge Luiz dos Santos, 43 anos, que comanda o bar-restaurante com a ajuda da mulher, Vanda Aparecida Mioto dos Santos, 41 anos. Ele coordena o atendimento e toma conta da administração. Ela assumiu o papel de chefe de cozinha. O filho homenageado com tamanho orgulho é Rodrigo Mioto dos Santos, 18 anos, que ajuda no estabelecimento. O casal tem mais uma filha, Rosane, de 10 anos.
A conquista de uma vaga no disputado curso de direito noturno da Universidade Estadual de Londrina por Rodrigo daria, no máximo, uma festa entre colegas do rapaz e familiares, não fosse algumas particularidades. A primeira delas é o cartaz. Do jeito que foi escrito, transmite puro orgulho, nada de esnobismo. Outra: alguns calouros são presenteados com viagens, carros, bens materiais; Rodrigo com um cartaz.
A mensagem, afixada perto da porta do Paulistano, não passa despercebida entre os trabalhadores que frequentam o restaurante diariamente para o almoço ou lanche. A lista oficial dos aprovados, colada ao lado, tem o nome de Rodrigo destacado.
Como bom comerciante, Jorge não importuna os fregueses de pouca conversa, aqueles que fazem as refeições no estabelecimento por apreciarem a comida e aprovarem o preço. Mas os amigos não escapam: ele mostra o cartaz e abre conversa, sem poupar elogios para o filho.
- Ele não fez cursinho e estudou sempre em escola pública.
Paulistano, Rodrigo iniciou os estudos em sua cidade de origem, de onde a família veio em 1988. O menino cursou até a sexta série do primeiro grau na Escola Evaristo da Veiga, centro de Londrina, e continuou até a conclusão do segundo grau no Colégio Estadual Professor Vicente Rijo.
O primeiro vestibular foi antes de encerrar o terceiro ano e, entre cerca de 1.600 candidatos para o curso de direito noturno da UEL, Rodrigo classificou-se em 200º lugar. No concurso seguinte, o estudante perdeu a vaga por pouco e se saísse uma terceira chamada, é provável que ele teria entrado no curso. No vestibular de inverno deste ano, Rodrigo classificou-se em 22º lugar, concorrendo com mais de 1.500 candidatos.
Os aprovados começam o curso só no início do ano que vem, mas Rodrigo já carrega para onde vai o Manual de Direito Internacional Público, de Hildebrando Accioly e Geraldo Eulálio do Nascimento e Silva.
- Eu sempre gostei de direito internacional. Sempre frequentei as bibliotecas para ler livros sobre o tema. Pretendo seguir a carreira diplomática - informa.
Apesar da vitória no vestibular, Rodrigo não se considera um gênio, apenas um estudante dedicado. Segundo ele, o pai e a mãe da namorada Thaissa, o professor de matemática Manuel Henrique Mendes e a professora de letras Sandra Regina Mendes, foram seus incentivadores e mestres.
- Se fosse com o que eu aprendi na escola pública, eu não teria passado. Ainda mais que eu conclui o segundo grau estudando à noite. É claro que tive bons professores, mas foram poucos.
Para os vestibulandos, a recomendação de Rodrigo é ter dedicação, mas nada de exageros. Estudar para aprender, por exemplo, na opinião dele só é possível com um bom livro. Apostilas, segundo o estudante, não servem.
Jorge Luiz e a mulher Vanda, pais de Rodrigo, puderam estudar somente até o quarto ano do antigo curso primário. O bar-restaurante da família não permite exageros, mas dá renda suficiente para uma vida sem sobressaltos. O estudo dos filhos em escolas públicas e a compra de material escolar em parcelas, conforme Jorge, são dificuldades passadas, diante de um orgulho que, às vezes, não cabe no cartaz colado na parede.
- Quantos pais gostariam de estar no meu lugar, quantos pais? - encerra a conversa.

mockup