Emerson Cervi
De Curitiba
Físico, professor de termodinâmica, ex-secretário Nacional de Tecnologia, José Walter Bautista Vidal, é um dos maiores críticos da política nacional de importação de pacotes tecnológicos dos países ricos para exploração da matriz energética do Brasil. Tendo sido um dos idealizadores do Proálcool, programa nacional de incentivo ao uso de álcool combustível, Bautista Vidal é contra a opção dos governos brasileiros de buscar em outros países os sistemas de produção de energia local. Com mais de duas mil páginas escritas em sete livros, ele assegura que o Brasil não conseguirá alcançar um nível razoável de desenvolvimento sem possuir suas próprias matrizes energéticas. ‘‘Essa política entreguista do governo federal vai contra todas as possibilidades de crescimento sustentável do país’’, afirma.
Segundo ele, a importação dos pacotes tecnológicos das potências hegemônicas não traz nenhum benefício aos países do terceiro mundo. Pelo contrário, aumenta a dependência de meios de produção que não exploram as potencialidades locais. Na entrevista que concedeu à Folha, o professor reclama das políticas de desenvolvimento financistas – que não valoriza os meios de produção – e apresenta os conceitos da biomassa como geradora de energia.
Folha – O senhor defende, em seus livros, que a questão energética está intimamente ligada ao desenvolvimento econômico das sociedades. Poderia explicar como se dá essa relação?
José Walter Bautista Vidal – Sem energia nada se move ou se transforma no universo físico. Não existe portanto nenhuma atividade principalmente as de natureza econômica que possa existir sem a crucial presença de energia. O desenvolvimento econômico depende diretamente do uso da energia que transforma os bens naturais em bens de uso e de consumo, que os transportam, que os conservam etc.. Não existe indústria, comércio, agricultura, transportes, comunicações, construção de qualquer espécie. Não existem forças armadas. Não existe a vida. E a harmonia do universo ao átomo depende de energia. A matéria é energia concentrada. Todas as civilizações existem, se desenvolvem e desaparecem tendo por base as questões energéticas. Há um livro traduzido pela editora da Universidade de Brasília, de título ‘‘Uma História da Energia’’, escrito por três franceses, dois historiadores e um físico, que contam o desenvolvimento e a decadência das civilizações tendo como base a forma energética em uso. Para análise da presente fase, eles tomam a energia nuclear e o programa do álcool do Brasil como exemplos.
Folha – As tecnologias para exploração de matérias-primas têm cada vez mais importância no aproveitamento de novas matrizes energéticas. Como pode haver desenvolvimento nessa área no Brasil se continuamos priorizando a importação de pacotes tecnológicos?
Bautista Vidal – Os pacotes tecnológicos estrangeiros, naturalmente, priorizam seus próprios fatores de produção, suas estratégias e suas políticas. Não priorizam mão-de-obra, de que carecem; mas priorizam capital financeiro que emitem sem critério e em regime de monopólio. Esses pacotes são naturalmente incompatíveis com nossas disponibilidades, criam desemprego extensivo, desprezam nossas fontes energéticas renováveis e limpas.
Folha – O que é geração de energia a partir da biomassa?
Bautista Vidal – Todas as formas energéticas utilizadas pelo homem em todos os tempos têm como fonte a energia que provém do Sol, com apenas três exceções: a energia das marés, a geotérmica e a energia nuclear. A última, em suas duas formas: a fissão, que resulta da ruptura de núcleos atômicos pesados; e a fusão, a partir da transformação da matéria em energia pela fórmula E=mc2 (sendo c a velocidade da luz que é 300 mil quilômetros por segundo). A energia solar é captada pela fotossíntese das plantas e armazenada nos chamados hidratos de carbono numa reação química endotérmica (com absorção da radiação solar). Nessa reação são usados o CO2 do ar e a água (H2O). Os hidratos de carbono são açúcares, óleos vegetais, amidos e celulole. São eles também os formadores dos combustíveis fósseis (petróleo, carvão mineral, xisto, turfa, etc.) por processos que duram eras geológicas (centenas de milhões de anos). Os fósseis são os hidrocarbonetos (hidratos de carbono sem oxigênio, o qual é perdido no processo de fossilização). Portanto, podemos dizer que os combustíveis fósseis são o capital que se forma da energia solar em milhões de anos, por isso são não renováveis. A biomassa é o dividendo da energia solar, renovável. Em se plantando nos trópicos, com água, sempre dá, de modo rápido se comparado a eras geológicas. O óleo de girasol, excepcional substituto do óleo diesel de petróleo, leva três meses para se formar.
Folha – Existe uma alternativa para solucionar o problema da falta de tecnologia nas ‘nações do sol’, já que nenhum país do hemisfério sul conseguiu, até aqui, substituir as importações de pacotes tecnológicos?
Bautista Vidal – O Brasil dispõe de toda a tecnologia necessária para substituir os derivados de petróleo, o carvão mineral e demais combustíveis fósseis por formas tropicais, renováveis e limpas. É o País mais avançado do mundo nessas tecnologias. Todos vêem buscar em nossas mãos o que eles não dispõem. A produção de energia da biomassa no Brasil utiliza recursos que temos em abundância. Significa milhões de empregos no campo. O Proálcool já significou (corrigida a inflação do dólar) uma economia externa de cerca de US$ 85 bilhões. Significa a redução drástica de poluição (chumbo, CO e outros venenos) nas grandes cidades. Significa autonomia nacional em questão estatégica gravíssima. Significa poder mundial no domínio tecnológico. Significa dar contribuição definitiva ao combate ao efeito estufa, gravíssima questão ecológica mundial provocada pelos combustíveis fósseis. Significa a possibilidade de ocupação de um imenso mercado mundial de exportação que se abre com o ocaso dos combustíveis fósseis que atualmente ainda movimentam o mundo. A questão é a tirania financeira de poder externo que de modo sistemático ignora tudo o que acabamos de dizer e muito mais. A arrogância dessa tirania não tem limites.
Folha – O senhor diz que o projeto de desenvolvimento dos países hegemônicos é suicída a médio prazo. Por quê?
Bautista Vidal – Eles tudo fundamentaram no petróleo e no carvão mineral. O primeiro está acabando e o segundo tem que reduzir em 80% o seu uso atual. Só a eletricidade nos EUA depende em 82% de combustíveis fósseis, principalmente do carvão mineral, terrível poluidor e causador do efeito estufa. Qual a saída desses países com o fiasco da fissão nuclear? Pelo visto é por meio da violência, ocupando com forças militares o Oriente Médio e a previsão de fazer o mesmo no mar da China e no mar Cáspio. Quanto à Amazônia, já a consideram de soberania relativa brasileira, como se isso fosse possível sem uma agressão frontal à nossa soberania.
Folha – Que exemplos o senhor pode citar de tecnologias que hoje já permitam a utilização da biomassa como fonte de energia?
Bautista Vidal – A tecnologia de substituição total da gasolina pelo etanol (álcool etílico); do óleo diesel por óleos vegetais; do óleo combustível por lenha e carvão vegetal, assim como a produção de eletricidade a partir de resíduos agrícolas e florestas energéticas, utilizando turbinas de alta eficiência, disponíveis no Brasil. O desenvolvimento e aumento de prudutividade das tecnologias não tem limites. Também a substituição do carvão mineral, sujo e contaminante, pelo carvão vegetal oferece importantes perspectivas na siderurgia mundial.
Folha – Qual a composição da matriz energética brasileira atual? A energia de origem hídrica está mesmo chegando ao seu limite?
Bautista Vidal – As principais opções hídricas já foram utilizadas, salvo na Amazônia, neste caso de uso muitíssimo problemático. Ademais elas implicam em linhas de transmissão muito custosas para levar a energia aos locais de consumo. No caso da eletricidade as perspectivas estão nas termoelétricas operadas com biomassa, elas evitam as linhas de transmissão e hoje existem turbinas com alta eficiência operando com gás de madeira. O potencial brasileiro neste campo é imenso. As termoelétricas de biomassa permitem profunda desconcentração econômica, extensiva praticamente a todo o território nacional. É surpreendente que a participação da biomassa na matriz energética brasileira tenha caído após o embargo do petróleo e a consciência ecológica mundial, mesmo com o surgimento do Poálcool.
Folha – As termoelétricas do hemisfério norte são acusadas de serem as grandes responsáveis por desequilíbrios climáticos. O processo de transformação da biomassa em energia também pode causar desequilíbrios ao meio ambiente?
Bautista Vidal – As termoelétricas do hemisfério norte ou são nucleares ou queimam combustíveis fósseis (carvão mineral e petróleo). As nucleares podem provocar perigosas contaminações radioativas e as outras são as principais responsáveis pelas grandes questões ambientais do planeta – mudanças de clima, chuva ácida e efeito estufa. Um horror. Vários derivados da biomassa – resíduos agrícolas, florestas energéticas e seus derivados, carvão vegetal e gás de madeira – são excelente fontes de calor além de serem limpos em questões ambientais. Portanto a biomassa pode se constituir uma base de termoelétricas de grande importância no Brasil. Elas têm a vantagem de se localizarem junto às próprias demandas de energia, evitando-se assim as custosíssimas linhas de transmissão de corrente contínua que apresentam perdas significativas de energia no transporte a grandes distâncias. Esse transporte de energia por corrente contínua cria porém o grave problema da sua utilização somente ocorrer na ponta final, impedindo assim seu uso no longo do trajeto de percurso da linha, como é possível por meio de abaixadoras em linhas de corrente alternada. O transporte de energia elétrica da Amazônia para o Centro-Sul será todo em corrente contínua.
Folha – Onde o uso da biomassa com fins energéticos está mais avançado?
Bautista Vidal – Em países da Europa começam a proliferar centrais termoelétricas com uso de biomassa. Em outubro de 1997 fui coordenador científico de Conferência internacional promovida pelo orgão executivo do Conselho de Ministros da União Européia precisamente sobre a geração de energia elétrica a partir da biomassa. Essa Conferência ocorreu na sede do Itamaraty, em Brasília, o que demonstra a importância que o continente brasileiro passará a ter nas questões energéticas e ecológicas mundiais. A atual geração de paranaenses tem uma grande dívida com as gerações futuras devido à devastação de suas imponentes florestas. Ademais, o alto potencial hidrelétrico do Estado resultou na inundação de vastas extensões de suas melhores terras agrícolas. A recomposição dessas florestas para fins energéticos, com espécies florestais selecionadas de altíssima produtividade, como fizeram em Minas, Bahia e Espírito Santo, pode transformar o Paraná em uma das mais ricas regiões do planeta. As regiões florestáveis do Brasil podem produzir a cada dois anos o total das reservas atuais de petróleo dos Estados Unidos.
Folha – Os municípios brasileiros têm condições de investir e manter empreendimentos desse porte?
Bautista Vidal – Ao contrário das outras formas extensivas de energia usadas pelo homem, a biomassa – toda de origem vegetal – é amplamente distribuída no território tropical, o que torna desnecessário o seu transporte a grandes distâncias. É racional portanto gerar a energia próximo ao local onde era será consumida, ou seja, onde está a demanda. A grande produção industrial brasileira está localizada no ABC de São Paulo, por causa da proximidade do porto de Santos e da nossa maior refinaria de petróleo, a de Cubatão. A medida que se afasta de Cubatão aumentam os custos de produção por causa do transporte dos derivados de petróleo. Assim, deve-se evitar no futuro grandes concentrações na produção de derivados da biomassa, como fizeram em São Paulo com a produção do álcool. Ela resultou da grande concentração de consumo, fruto do uso extensivo do petróleo e da proximidade de Cubatão. A alternativa dos derivados da biomassa ao petróleo muda o modo de distribuição da população no território nacional, evitando as brutais concentrações impostas pelo petróleo e permitindo a ocupação de todo o território. Isso significa a salvação das megalópoles brasileiras hoje com inúmeros problemas sem solução. Os níveis de investimentos na geração de energia sofrem, no caso da biomassa, grandes reduções pela dimensão reduzida do empreendimento. Isso fica compatível com as capacidades de investimentos de empresas e mesmo de pequenas comunidades. Também, esses níveis reduzidos nos investimentos dispensa a necessidade de envolver bancos ou mesmo empréstimos externos, causas da destruição das atividades econômicas no País, devido a absurdas taxas de juros. Na realidade, a desconcentração econômica que resulta da substituição do petróleo pela biomassa, localmente produzida em qualquer ponto do território nacional não somente irá interromper como reverterá as corrente migratórias internas da população. As formas energéticas tropicais, renováveis e limpas permitem essas profundas transformações na vida econômica do País que o Proálcool apenas vislumbrou porque os dirigentes brasileiros continuam ignorando nossa potencialidades, neste caso estratégicas.
Folha – O senhor é um dos idealizadores do Proálcool. Qual era o objetivo inicial desse projeto e como se deu sua decadência?
Bautista Vidal – O Proálcool foi inicialmente a ponta de um imenso ‘‘iceberg’’. Posteriormente foi na prática destruído por ação da tirania financeira de controle externo que governa o País. O Brasil foi o único país a conseguir equacionar a substituição dos derivados do petróleo. O Brasil implantou com total sucesso a substituição extensiva de um dos derivados – o mais díficil de substituir – a gasolina. Cerca de 98% da frota nova de veículos, anteriormente a gasolina, chegaram a ser a álcool. Não se produziam mais veículos em série a gasolina. Hoje a produção de carros novos a álcool não chega a 1%. A tirania financeira conseguiu esse desastre, retirando o crédito dos pequenos produtores de cana de açúcar, que representavam 40% da matéria prima necessária. Quem é maluco de comprar um veículo se não existe a garantia de poder abastecê-lo com combustível? Faltou então de modo dramático álcool no mercado. Até o perigoso veneno metanol foi usado, além de importar-se álcool retirado de vinho – uma grande molecagem.
Folha – É rentável ao País produzir álcool combustível?
Bautista Vidal – Não se pode dizer que um programa que deu uma economia ao país de cerca de US$ 80 bilhões – considerado a inflação do dólar e os custos financeiros economizados – para um investimentos em moeda nacional de apenas R$ 7 bilhões seja decadente. Ele criou cerca de um milhão de empregos; colocou o Brasil na fronteira mundial na tecnologia do setor energético dos combustíveis líquidos renováveis; reduziu drasticamente a poluição ambiental nas grandes capitais, melhorando substancialmente as condições de saúde da população; reduziu os custos financeiros externos com a redução das importações de petróleo; ativou a indústria de bens de capital em momento de alta capacidade ociosa; fortaleceu de modo substantivo a autonomia nacional em setor estratégico de alta vulnerabilidade. É o único setor de nossa economia que resta em mãos do capital nacional e o único com total autonomia tecnológica, a mais avançada em todo o mundo. O que podemos criticar duramente no Proálcool é que ele poderia ser muito mais e não foi. Pelo contrário, está brutalmente reduzido do que já foi. O objetivo inicial era substituir todos os derivados do petróleo por formas energéticas nacionais ante a perspectiva do fim da era do petróleo. A razão portanto de sua criação persiste, com a situação do petróleo muito mais grave. Hoje o petróleo é uma questão militar, com o Oriente Médio – mais de 80% das reservas de petróleo que sobram – ocupado por forças militares dos Estados Unidos.
Folha – Como foi a concepção e financiamento do Proálcool?
Bautista Vidal – Havia indícios históricos que evidenciavam o potencial mas não se tinha idéia de suas dimensões. Não havia porém tecnologia atualizada e o setor produtivo não tinha competência nem motivação. A Secretaria de Tecnologia Industrial do Ministério da Indústria e do Comércio, que eu dirigia, com Severo Gomes como ministro e Paulo Belotti como Secretário Geral, assumiu o papel de resolver a questão crucial, a tecnológica. Foram envolvidos mais de dois mil pesquisadores de alta competência em cerca de vinte importantes instituições de produção tecnológica, que demonstraram competência internacional, tornando-se em seus respectivos setores os melhores. Sem a presença total do Estado é impossível levar avante programa da complexidade de substituir um combustível extensivo, que envolve um grande número de setores da economia e da vida diária das pessoas. O governo cuidava da construção e não da destruição nacional, como faz hoje.
Folha – Então, por que o governo federal resolveu entregar o Proálcool para ser gerido por um organismo internacional, se o projeto era totalmente brasileiro?
Bautista Vidal – No final do governo Geisel, o ministro da fazenda, Mário Simonsen, disse-me que tinha vindo de uma reunião com banqueiros em Nova York na qual eles manifestavam um grande interesse no Proálcool. Somente fariam novos empréstimos ao Brasil se este desse como forma de aval o controle do Proálcool. Perguntei a Mário porque isso se o programa não tinha usado nem um só centavo em moeda externa. Disse-me então que esse empréstimo era fundamental para fechar o balanço financeiro externo e ponto final. As consequências disso vieram mais tarde. O Banco Mundial passou a controlar a Comissão que aprovava os projetos de álcool, terminando com a sua desativação. A essa altura dos acontecimentos a Secretaria de Tecnologia Industrial estava em processo de desmonte; dezenas de projetos foram interrompidos, inclusive a do motor para o uso exclusivo do álcool projetado para as propriedades termodinâmicas deste.

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