Pais pedem internação dos filhos
Curitiba - "Os pais têm vindo com muita frequência aqui na Vara pedir para a gente deixá-los internados aqui, ou seja, presos aqui na unidade, porque aqui é uma cadeia, uma delegacia, porque o adolescente está ameaçado de morte pelo traficante", conta a juíza da Vara do Adolescente Infrator, Maria Roseli Guiessman, que evidencia o drama vivido pelos familiares de jovens traficantes e usuários de drogas que já passaram por uma medida sócio-educativa.
O relato da juíza demonstra exatamente o que fez a mãe do adolescente Paulo. "Eu mesma, várias vezes cansei de pedir para promotora, para juíza, deixar ele (na Delegacia do Adolescente), porque ele estava correndo riscos sérios. Aí ele começou a se envolver com gente mais séria, gente mais da pesada", lembra Luiza.
A delegada Aline Manzatto, da Delegacia do Adolescente (DA), também encontra casos dos próprios jovens que procuram a internação para não serem mortos. "Alguns chegam aqui pedindo para que sejam apreendidos porque eles estão com medo de morrer. Já tivemos algumas situações dessas aqui. Eles chegam falando me prende porque senão vão me matar. Obviamente a gente não apreende, a gente encaminha para a Vara (do Adolescente Infrator), que passa ele para um local de atendimento".
De acordo com Maria Roseli, não seria possível internar um adolescente que não tenha um ato infracional de natureza grave, ou seja, que é praticado com violência ou grave ameaça à pessoa e nem aquele que não tenha sido submetido ao devido processo legal, que não foi ouvido em audiência. "Só nestes casos que a gente pode apreender, por descumprimento de medida ou outra coisa", explica. "Como você vai decretar uma prisão? Não pode. É complicado e eles vêem como última saída porque eles já percorreram. Tentaram hospitalizar e não conseguiram, já tentaram comunidade terapêutica e não conseguiram, quer dizer, é última tentativa de salvar o adolescente", afirma a juíza.
Porém, a coordenadora do Centro de Sócio Educação (Cense) da Fazenda Rio Grande, Margarete Rodrigues, lembra que, além de garantir a convivência familiar e comunitária, a permanência dos adolescentes em meio aberto tem o objetivo de não isentar a família de sua principal responsabilidade. "Algumas famílias ficam boa parte do tempo dizendo eu não dou conta desse menino, aí chega aqui vê que ele está tranquilo, desintoxicado, voltou a ser um menino afetivo. (A família) quer dizer pra gente toma que você é quem sabe lidar com ele, fica aí. Aí é outro problema. Quando a família começa a elogiar muito o nosso trabalho, você é obrigado a dizer o filho é teu, o Estado está aqui para dar um apoio para você melhorá-lo, mas o filho é teu", ressalta. (C.G.B. e D.R.)





