Edinelson Alves
Especial para a Folha
Milhares de famílias norte-paranaenses cruzam a fronteira nesse período do ano para trabalhar nas lavouras de Minas Gerais e São Paulo. Durante três meses elas fixam residência nas fazendas de café daqueles estados. Além de enfrentar essa jornada de incerteza, há um outro agravante nesse histórico de migração rural: a evasão escolar.
Com os pais bóias-frias vão os filhos, crianças e adolescentes em idade escolar. Elas são forçadas a trocar a educação pelo trabalho do campo. Os números oficiais não refletem a realidade. Muitos pais nem pedem a transferência porque utilizam o trabalho das crianças para aumentar a renda familiar. Essa rotina de migração, ano a ano afasta o jovem da escola, roubando-lhe a oportunidade de se preparar para um futuro melhor.
Bela Vista do Paraíso é um dos municípios que mais sofre com a migração rural. O distrito de Santa Margarida é um tradicional exportador de mão-de-obra para outros Estados. A diretora da Escola Estadual Presidente Vargas, Duzulina Sperandio da Silva, que há 9 anos acompanha a realidade social e educacional daquele distrito confirma que ‘‘a evasão escolar é um mal que acompanha a rotina de Santa Margarida’’.
Ela menciona o que ocorreu no ano passado. Dos 188 alunos do período noturno, 52 pediram transferência porque foram trabalhar fora. Considerando que outros 10 deixaram a escola sem oficializar a saída, aproximadamente 62 estudantes interromperam o ano escolar. Isso só naquele grupo de 188 do período noturno.
No meio desses números há situações dramáticas.‘‘A maioria dessas crianças começa a ficar triste e angustiada nas semanas que antecedem a partida para Minas ou São Paulo. As que vão enfrentar a escola lá sabem que vão ser humilhadas pelos colegas de classe, pois eles não são bem aceitos naquele meio. Quando retornam, essas crianças chegam revoltadas e marcadas emocionalmente pelo sofrimento provocado pela brusca mudança. É hora então de investir no trabalho psicológico na tentativa de melhorar a auto-estima’’.
Mas nem todos retornam à escola. Esse é um caminho que pode levá-los a desistência dos estudos. Para a diretora, toda essa violência contra os alunos é provocada pela falta de trabalho no distrito. ‘‘É a situação social que obriga a migração das famílias. Não existe emprego para todos e mesmo sabendo que serão explorados em Minas e que enfrentarão tempos de dificuldades, os pais decidem ir por não ter outra alternativa’’, observa.
Ela afirma que em muitos casos os alunos vão a escola por causa da merenda. ‘‘As próprias mães nos contam que a única refeição do dia é feita na escola. Sem contar as inúmeras situações de carências nas quais nos envolvemos em campanha ou pedido de auxílio para socorrer os mais necessitados. A carência social tem sido uma dura lição para grande parte das famílias do distrito’’, afirma Duzulina.
Há 10 anos Nilson Bucalon trabalha com a Pastoral do Migrante em Bela Vista do Paraíso. Ele não esconde sua frustração diante da dura realidade. ‘‘A gente luta, luta e a cada ano parece que a situação piora. É muito triste assistir a cada partida de um ônibus para Minas ou São Paulo. De cada grupo de 40 pessoas que partem, entre 10 e 12 são crianças em idade escolar. Nesse período do ano parece que Santa Margarida se esvazia. Temos tentado trabalhar na conscientização dessas pessoas, mas poucos entendem. Sinto que a Igreja e a sociedade acordaram muito tarde para enfrentar esse problema da migração’’, lamenta.
Para o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais Arnaldo Nascimento de Jesus, dos 2 mil bóias-frias de Bela Vista a metade já deixou a cidade para trabalhar fora. Ele diz que a evasão escolar é um problema muito sério, principalmente em Santa Margarida. ‘‘A gente entende a opção dos pais. Eles precisam trabalhar para tentar garantir a comida. A escola acaba ficando em segundo plano’’, compara.
Mas Arnaldo vê uma mudança radical na vida daqueles jovens. ‘‘Sem trabalho, sem escola e sem nenhuma perspectiva de futuro, os jovens rurais que antes eram conhecidos pela vida simples e pacata, agora estão descobrindo o mundo das drogas, do álcool e da prostituição. É triste tudo o que está ocorrendo, mas é a realidade’’, acrescenta.Falta de trabalho obriga famílias de trabalhadores rurais a buscar ocupações em lavouras de Minas Gerais e de São Paulo
Fotos: Arquivo FolhaUm drama que se repeteCrianças de municípios essencialmente agrícolas do Norte do Paraná ocupam a maior parte de seus dias trabalhando nas lavouras para ajudar a família. Mesmo matriculadas em escolas, elas faltam às aulas quando há trabalho no campo. Na foto acima, época de colheita de algodão. Ao lado, sala de aula de escola rural praticamente vazia: evasão acentuada

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