Jaguapitã - Todo ano é assim: quando se aproxima o dia de fazer matrícula de alunos da quinta série do ensino fundamental na Escola Estadual Valdemir Pedroso, em Jaguapitã (Norte), os familiares formam fila na porta do colégio para garantir uma vaga no período matutino. Este ano, 70 famílias se revezam desde as 19 horas da última sexta-feira, numa fila que ocupa duas calçadas, para matricular os filhos hoje, a partir das 7h30.
Segundo a funcionária pública aposentada Cristina Xavier, que na tarde de ontem guardava um lugar para o neto de dez anos, todos os pais chegaram no mesmo horário e permanecem juntos desde então. ''Eu sou a terceira da fila'', disse Cristina, que anotou os nomes dos pais num caderninho, por ordem de chegada, para controlar a confusão.
''Faço a chamada de hora em hora para evitar que alguém dê uma escapadinha da fila. Saiu, perdeu o lugar'', declarou a aposentada, explicando que a preocupação dos pais está ligada ao número de vagas para estudar de manhã. ''São apenas 80.''
Para os pais que aguardavam na fila, a vontade era uma só: garantir um ensino de qualidade aos filhos. Segundo os familiares, o período matutino é melhor porque os alunos são menores. ''Pela manhã é mais viável também porque à tarde os meninos vão para a catequese e treinam futebol'', comentou o pedreiro Julio Martins, que se revezou com a esposa e o sogro nos últimos três dias para guardar o nono lugar na fila de espera da matrícula.
Ontem, dezenas de parentes aguardavam sentados em cadeiras de praia colocadas aleatoriamente na calçada. Mães, pais, avós, tios conversavam despojadamente sob o sol, enquanto as crianças brincavam na rua. Dormindo no relento desde sexta-feira, Cristina Xavier enfrentou até chuva na madrugada de sábado.
''Quando começou a chover, batemos na porta da escola até sermos atendidos. Com muito custo a diretora deixou a gente entrar e passamos a noite no pátio onde funciona a cantina'', contou a aposentada, que tem outros dois netos que já estudam no colégio. ''Sei que vai dar para garantir a matrícula, mas não posso sair daqui'', completou.
Conforme a diretora da escola, Marta Betanes da Silva, que ocupa o cargo há sete anos, ''este sacrifício desnecessário dos pais acontece todo ano''. ''Não há falta de vagas, são as mesmas 80 vagas para os períodos matutino e vespertino'', garantiu Marta, informando que a escola é a única a oferecer ensino público de quinta à oitava série na cidade.
''Eles têm essa cultura de que estudar de manhã é melhor e estigmatizam a tarde, falando que tem mais problemas, que os alunos são maiores. Há, inclusive, um preconceito com os alunos da tarde, principalmente pela origem deles, já que muitos são da zona rural e dos conjuntos'', disse Marta.
Para ela, este pensamento é infundado, ''já que os problemas de manhã e à tarde são os mesmos''. Segundo a diretora, cada sala de quinta série tem, em média, 30 alunos e é ofertado o mesmo número de salas - três ao todo - nos dois períodos. ''Conversei com a APMF (Associação de Pais, Mestres e Funcionários) e para o ano que vem vamos estudar um modo de evitar essa fila desnecessária'', afirmou.

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