Pais enterram 'Doido' e levantam dúvidas
Pais enterram Doido e levantam dúvidas
Acusado de matar e estuprar menina de 5 anos foi sepultado em Londrina; namorada que diz ser álibi não foi ouvida pela políciaWalter Ogama
De Londrina
Os familiares de Ademir Justino da Silva, o Doido: Ele teria coragem de matar e estuprar uma criança?O corpo de Ademir Justino da Silva, 21 anos, o Doido, foi enterrado ontem, às 9h15, no Cemitério Jardim da Saudade, na zona norte de Londrina. O sepultamento do acusado de ter matado e em seguida estuprado a menina Greice Carolina da Silva Melo, de 5 anos, na noite do dia 1º deste mês, demorou quase uma hora e foi cercado de emoção. Todo o serviço funerário foi feito gratuitamente pela Administração de Cemitérios e Serviços Funerários de Londrina (Acesf).
Familiares, parentes e alguns amigos acompanharam o enterro de Ademir, que dias antes de ser linchado por detentos da Prisão Provisória de Londrina, na manhã do último sábado, havia prestado depoimento para a delegada do 2º Distrito Policial, Waldete Testoni, e foi liberado. Tido como suspeito número um pelo desaparecimento da menina, cujo corpo ainda não havia sido encontrado, Ademir negou para a delegada ser autor de um possível sequestro de Greice. A morte da menor ainda não era admitida naquele momento.
Silva: Entreguei meu filho com vidaNo sepultamento, o pai de Ademir, Marivaldo Justino Silva, 49 anos, mecânico em Santa Cecília do Pavão (110 km a leste de Londrina), chamou com um gesto os parentes para perto do caixão aberto e improvisou um discurso. Não disfarçou a voz, que titubeava pelo choro. E não poupou nas suas palavras o sentimento de revolta que o dominava. Disse, com seu jeito simples de falar, que havia entregado o seu filho vivo, na sexta-feira, para a Justiça. Acrescentou que não era dono de um açougue e não admitia receber o corpo de Ademir da forma que lhe foi entregue no final da tarde de sábado, como carne moída.
A mãe de Ademir, dona Olivina, 37 anos, foi a primeira a se agachar e, com o peso da morte do filho pesando em suas costas como um fardo de dor a ser carregado para o resto da vida, ajuntou um punhado de terra e esparramou sobre o caixão. A namorada K.C., 18 anos, que suspeita estar grávida de um mês e meio das relações que mantinha com Ademir, chorou sobre o corpo do namorado.
Luzia Moreira: Não era um assassinoNo final da tarde de sábado, quando o corpo de Ademir era preparado na Acesf, K.C. disse à Folha que havia dormido com Ademir na noite do desaparecimento de Greice. Ademir teria ido trabalhar na cata de papel às 11 horas e disse para os amigos, já depois de ser considerado o principal suspeito pelo sumiço da menina, que naquele dia havia passado três vezes por Greice.
Ademir teria retornado para o barraco de madeira onde mora, na invasão Monte Cristo, próximo ao Jardim Marabá, na zona leste de Londrina, às 21h30. Para K.C., Ademir admitiu que havia bebido um pouco. Depois daquela hora Ademir não teria saído de casa, conforme garantiu K.C. Ele nem teria atendido alguns amigos que o chamaram do lado de fora do barraco, dizendo estar cansado. Uma irmã menor de K.C. teria passado a noite no barraco.
Às 6 horas, o relógio despertou, acordando K.C. e Ademir. Enquanto ela se preparava para ir ao trabalho, ele ficou conversando e brincando com ela. K.C. saiu do barraco às 7h15 e, segundo avaliou para a Folha, não havia percebido nada de anormal no namorado. Ele estava tranquilo e sossegado. Por isso custo a acreditar que ele tenha matado aquela menina.
O drama da família Silva, que deve prosseguir por meses ou anos até que seu Justino e dona Olivina tenham respostas para uma dúvida que atormenta o casal, começou no dia em que Ademir prestou depoimento no 2º Distrito Policial, na quinta-feira, dia 9. Ademir teria coragem de matar e estuprar uma criança? Seu Justino acompanhou o filho e saiu convicto que Ademir era inocente. Resolveu levá-lo para Santa Cecília do Pavão, onde o filho permaneceu até o início da tarde da sexta, minutos depois do corpo de Greice ser encontrado.
Seu Justino lembra que assistia à TV ao lado do filho, quando o noticiário anunciou que o corpo da menina havia sido achado. Ademir teria dito: Graças a Deus, pai, que acharam o corpo da menina. Assim vão ficar sabendo que não fui eu o culpado. Mal terminara de fazer o comentário, a polícia bateu na porta da casa. Eu confiei na Justiça e entreguei meu filho. Disseram para mim que ele ia ficar preso em Santa Cecília. Garantiram a vida do meu filho, desabafou seu Justino na tarde de sábado, em frente da sala onde funciona o Instituto Médico-Legal (IML), em Londrina. Eu não entreguei para a polícia um corpo moído. Entreguei meu filho com vida, acrescentou.
Mas, na manhã de sábado, seu Justino recebeu o recado. Haviam linchado e matado Ademir. Agora, eu queria até que ele fosse mesmo o culpado. Porque sem vida não adianta mais saber se ele era inocente ou não. Seu Justino conseguiu a isenção dos custos do serviço funerário na Acesf e queria enterrar o filho já no sábado. A escolha de Londrina para o sepultamento, segundo disse, era para não ter que levar um filho, que entregou vivo, morto para casa.
Ele também preparava a remoção do outro filho, Valter Justino da Silva, 16 anos, para Santa Cecília do Pavão. O menor estaria correndo risco de vida. Valter, que mora em companhia de Mara da Silva também na invasão Monte Cristo, em uma casa em frente ao barraco onde morava Ademir, teve o seu lar e o da companheira arrombado e saqueado. O ato, segundo interpretou, teria sido a revolta de alguns moradores próximos com o que o irmão teria feito.
Que culpa tenho eu se ele (Ademir) fez alguma coisa. Não é justo o que estão fazendo comigo, chorou Mara, que com a ajuda da polícia ainda conseguiu retirar de sua casa algumas peças de roupa e de cobertores que restaram do saque. Os invasores também deixaram na casa a perna mecânica de um filho de Mara. Os moradores da casa haviam saído do local antes da invasão, logo que perceberam que havia perigo em permanecer no local.
Luzia Madalena Moreira, uma espécie de líder comunitária da invasão Monte Cristo, recebia ajuda de Mara para a realização do trabalho comunitário. O Doido (Ademir) chegou a trabalhar no Mercadão (Popular, no Jardim Ideal). Ele estava no Monte Cristo desde que houve a invasão, há três anos. Foi catar papel depois que ficou desempregado. Não tinha jeito de ser uma pessoa com coragem de cometer um assassinato.
Ainda no sábado, seu Justino anunciava a intenção de entrar com ação contra o Estado, não para ter o filho de volta. Conforme disse, era para punir as pessoas que negaram a Ademir o direito a uma condenação justa. Ele comentava, entre cerca de 10 catadores de papel que compareceram no IML sábado, que havia ouvido de pessoas da polícia que a cela de Ademir havia sido aberta já na noite de sexta-feira. Na manhã de sábado, o secretário de Segurança Pública do Paraná, Cândido Martins de Oliveira, afirmou à reportagem da Folha que tinha a informação de que Ademir teria sido agredido na madrugada de sábado. As informações oficiais são de que a morte ocorreu depois, pela manhã.
Quanto ao apelido do filho, seu Justino informou: Doido foi apelido que Ademir ganhou já em Londrina. O apelido, segundo disse, nada tinha a ver com o comportamento de Ademir. Seria pelo fato dele ter resolvido catar papel para sobreviver.





