Pais despreparados, filhos desamparados
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de fevereiro de 2007
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Houve um tempo em que a maioria das crianças que vivia em abrigos era órfã, por isso este tipo de moradia também era chamado de orfanato. Hoje as crianças que habitam estas instituições quase sempre têm pai e mãe, mas são vítimas de um outro mal, que está na origem de muitas tragédias: o despreparo das famílias para criá-las. Um despreparo que se traduz em maus tratos, negligência, humilhações, e que no futuro se transforma em tráfico de drogas, roubos, assaltos, sequestros, homicídios.
A promotora da Vara da Infância e Juventude de Londrina, Édina Maria de Paula, diz que praticamente não existem casos de órfãos na cidade, mas quando o assunto é violência doméstica, os exemplos são muitos. ''Temos casos de bebês que são espancados pelos padrastos e depois as mães alegam que não viram nada, temos pais vivendo amasiados com filhas, famílias que não assumem os cuidados com os filhos. Há casos que nem os cuidados básicos, como alimentação, são supridos.''
A falta de cuidados é tanta que a promotora chega a defender uma 'escola para pais', uma espécie de serviço de alerta. ''Estas famílias precisam saber colocar um filho no mundo é coisa muito séria. Temos seres humanos que ficam comprometidos para o resto da vida'', constata.
Dados da mais antiga casa-lar da cidade, o Anália Franco, comprovam as informações da promotora. Fundada em 1963, a instituição conta com 80 abrigados. Destes, oito são órfãos; os outros são vítimas de abandono ou maus tratos. ''Temos um caso em que a mãe, assim como a filha, é doente. Nos outros casos os pais têm envolvimento com álcool e drogas; em muitos até com prostituição'', revela a assistente social do Lar, Sueli Aparecida Lourençon Forle.
Funcionária antiga da instituição, ela tem acompanhado de perto o crescente despreparo das famílias para criar seus filhos. ''Quando a criança tem pai e mãe e eles não a visitam, é mais traumático do que quando esta criança sabe que não tem ninguém. Embora o sentimento de abandono exista nos dois casos, a existência dos pais provoca um sofrimento maior'', diz Sueli. O resultado deste trauma, na opinião da assistente social, depende de cada ser humano e de como ele é tratado na instituição que o acolhe.
Segundo pesquisa feita pelo Unicef (Fundo da Organização das Nações Unidas para a Infância) o grande número de crianças vivendo sem a proteção dos pais gera não apenas um efeito psicológico devastador, mas também uma profunda pobreza em muitas regiões.
Para recriar o ambiente familiar e tentar garantir um futuro para as crianças atendidas, o Anália Franco implantou em Londrina, há mais de 40 anos, o modelo de casas-lar. Construídas dentro do terreno de 24 mil metros quadrados, cinco residências - separadas do prédio principal - abrigam uma média de 15 crianças e adolescentes cada, vivendo sob os cuidados de pais e mães sociais. Chamados de laristas, eles se tornam referência e uma espécie de porto seguro das crianças. ''No começo a sensação é de que a gente não vai dar conta, mas com o tempo nos habituamos e aprendemos a lidar com cada criança'', revela Rosangela Nogueira Ferreira, uma das mulheres que tentam suprir a ausência das mães biológicas.


