Paiçandu 'guarda' cemitério de caboclos
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de janeiro de 2008
Donizete Oliveira<br> Especial para a Folha 
Paiçandu - A história registra que os primeiros habitantes de Paiçandu, Região Metropolitana de Maringá, foram os índios e os caboclos. Segundo a lenda, na região vivia um famoso curandeiro conhecido por 'Pai Çandu', que deu nome ao município. Outra versão diz que o nome origina-se de uma fortaleza uruguaia chamada Paysandu, que teria sido local de batalha na guerra travada naquele país em 1865.
Se a polêmica em relação ao nome persiste, uma coisa pelo menos ninguém contesta: os caboclos viveram em Paiçandu. Eles formaram uma grande comunidade no município hoje cortado pela PR-323, que liga Maringá a Cianorte. Na beira da rodovia, local conhecido por Gleba Paiçandu, foi erguida uma igrejinha e nela uma placa lembra que ali era o Cemitério dos Caboclos.
Abandonada, a pequena construção só recebe visita de curiosos e gente que realiza trabalhos espirituais. Não faltam velas de várias cores espalhadas pelo chão. Poucos talvez saibam que os caboclos tiveram presença importante na região e só deixaram a área com a chegada da Companhia de Terras.
Segundo o professor de História e Sociologia, Antônio Renilson Rivato, a maioria dos caboclos que habitaram a Gleba Paiçandu era descendente dos que lutaram na Guerra do Paraguai, por volta de 1870. ''Muitos deles morreram em disputas de terras com jagunços'', afirma. Segundo o dicionário Houaiss, caboclos são selvagens brasileiros, mestiços de índios. ''Com o tempo, eles espalharam-se por vários lugares, principalmente, pelo Sul do Paraná'', completa o professor.
Um dos poucos que se recordam da vida dos caboclos em Paiçandu é o pioneiro Severino Bolognese, 90 anos. Ele chegou ao município em 1945 e conta que essas pessoas moravam em casinhas de palmito cobertas por sapé. Eles mantinham as tradições, e um senhor chamado Sebastião Justo era encarregado das cerimônias religiosas. De acordo com Bolognese, ele fazia casamentos, batizados e encomendava os mortos. ''Era um líder carismático, que fazia o papel de sacerdote na comunidade''.
O bom relacionamento de Bolognese com os caboclos lhe rendeu um convite: batizar o filho de um deles. Ele aceitou e ganhou mais confiança e amizade na comunidade. ''Eles (os caboclos) organizavam grandes festas, as maiores eram em homenagem a São Sebastião, São João, São Pedro e Santo Antônio'', lembra. O cristianismo imperava entre eles, mas tinham influência dos rituais africanos e indígenas.
Outro pioneiro que se lembra da comunidade cabocla é Luciano Cotardi, 83. Ele chegou a Paiçandu na década de 50, e diz que admirava os rituais religiosos manifestados em datas festivas. Os sepultamentos, por exemplo, eram feitos com grande acompanhamento. Os corpos eram depositados nas covas sem caixão.
Cotardi acrescenta que a fala dos caboclos tinha forte sotaque caipira e expressões que só eles entendiam. ''Mas era um povo feliz e sempre pronto a ajudar os mais próximos'', recorda-se ele. ''Esse modo de agir fez com que se tornassem pessoas simpáticas conquistando amizade em toda região.''
O chefe de gabinete da Prefeitura de Paiçandu, José João de Almeida, o Juca, afirma que está nos planos da atual administração construir um portal na área que abriga o Cemitério dos Caboclos e explorá-la turisticamente. ''É um sonho que temos, agora, para que isso vire realidade é preciso dinheiro.''
Paiçandu pode se tornar um grande potencial turístico, acredita Almeida. Mais uma razão foi descoberta de uma mina de água com vanádio - mineral raro - em proporção ideal para o consumo humano. ''Aqui, dá para construir até uma estância hidromineral'', acrescenta.
Os primeiros projetos em busca de recursos para a revitalização do cemitério já foram encaminhados ao Ministério do Turismo. ''É um processo lento, mas acreditamos que Paiçandu será contemplada'', diz.


