Londrina




Milton Dória


TristezaEvdokia Ovchi ontem na delegacia de Cambé (na foto de cima, Kusma Ovchinnikov): latrocínio no pontilhão



Um agricultor e o filho de dois anos e meio foram assassinados durante assalto, anteontem à noite, em Cambé. O crime chocou a região. Kusma Ovchinnikov, 36 anos, veio com a mulher, Evdokia Ovchi, 34 anos, e o filho, Sava, para Londrina para comprar um caminhão. Eles moravam há três anos em Primavera do Leste (MT). A família é descendente de russos e, antes de se mudar para o Centro-Oeste do País, morava na colônia Witmarsun, perto de Ponta Grossa.
O crime aconteceu por volta das 21h30, no pontilhão do trevo de Cambé, na PR- 445. Evdokia prestou depoimento à polícia ontem pela manhã. Ela contou que a família esteve em Londrina no dia 12 deste mês, de passagem para Ponta Grossa. Na ocasião, eles ficaram hospedados no hotel Gali, na avenida Tiradentes (zona oeste). A viagem à colônia russa tinha uma finalidade: vender um sítio e conseguir dinheiro para comprar um caminhão.
Em Ponta Grossa, depois da venda do imóvel, um amigo da família chamado Mig indicou um corretor de carros usados de Londrina, conhecido apenas como Jair. Kusma, Evdokia e Sava retornaram a Londrina na quarta-feira, hospedaram-se novamente no hotel Gali, e começaram a manter contato com Jair, através de um telefone celular (o aparelho já está com a polícia). Na quinta-feira eles combinaram um encontro no estacionamento do shopping Com-Tour, na avenida Tiradentes, zona oeste de Londrina.
O falso corretor só chegou ao local do encontro por volta das 21 horas, em uma Parati bege, segundo o delegado Nasser Salmen, de Cambé. Os Ovchinnikov seguiram a Parati de Jair com o carro da família - um Corsa verde, placa JYI 6183, de Primavera do Leste - até um posto de gasolina, na avenida Tiradentes, perto do Hotel Gali, onde o caminhão estaria estacionado.
Segundo o delegado, o caminhão mostrado a Kusma estava apenas estacionado no Posto e pertencia a uma transportadora - ele não sabe informar qual empresa. A viúva contou que o agricultor pediu as chaves para ver o caminhão. ‘‘O Jair disse que ia pegar a chave e se afastou. Logo em seguida, dois homens vieram por trás do Corsa e deram voz de assalto’’, explica Salmen.
A mulher contou que os dois assaltantes entraram no Corsa. Na frente seguiram um dos ladrões (na direção) e a mulher ao lado. No banco traseiro, atrás do motorista, sentou Kusma com o menino no colo. Ao lado dele ficou um dos assaltantes, armado. O carro seguiu em direção a Cambé, passou pelo pontilhão e tomou a direção da Universidade de Londrina, na PR-445.
Poucos metros depois do pontilhão, Salmen acredita que Kusma tenha reagido ao assalto. O agricultor tinha uma arma, uma pistola calibre 6.35 (era registrado no nome de Ovchinnikov e ele tinha porte de arma, lembra o delegado) e quando teve uma oportunidade, diz Salmen, ele sacou a arma. ‘‘Kusma chegou a atirar, mas a bala picoteou e o tiro não foi deflagrado.’’ O assaltante que estava no banco traseiro disparou contra Kusma e Sava, que estava no colo do agricultor. O mesmo tiro atravessou o peito do garoto e atingiu o peito do pai, matando os dois.
Evdokia conta que os assaltantes pararam o carro e ameaçaram matá-la também, enquanto batiam com a arma na cabeça da mulher. ‘‘Pedi a Deus e acho que ele me ajudou’’, relata. Os assassinos abandonaram o carro e fugiram a pé para Cambé, levando a bolsa dela com R$ 15 mil e todos os documentos. Evdokia ainda ficou por cerca de meia hora na pista da rodovia pedindo ajuda, mas ninguém parou para ajudar. ‘‘Eu gritava, chorava, pedia ajuda para os veículos, mas ninguém parou. Então peguei meu filho morto no colo e uma pessoa parou e ligou de um celular para a polícia’’, diz, desesperada. Segundo ela, o marido estava respirando enquanto aguardava socorro, mas quando a polícia chegou ele também já estava morto.
Evdokia tem mais seis filhos no Mato Grosso. ‘‘Eu tinha oito filhos. O mais velho - de 18 anos - morreu em um acidente de avião há três meses. E agora o menor também morreu’’, lamenta a mãe. Ela não sabia descrever os assaltantes que mataram o marido e o filho. Mas deu uma descrição do Jair: baixo, ‘‘meio’’ gordo, moreno e cabelo preto.
Ontem pela manhã, Nasser Salmen trouxe Evdokia para checar os arquivos de foto da 10ª Subdivisão Policial, em Londrina, para tentar um reconhecimento. O delegado não tem dúvida de que se trata do ‘‘Golpe do Chute’’. ‘‘É um primo do golpe do 3 por 1’’, explica Salmen. ‘‘As vítimas são atraídas pela ilusão de um objeto e levam dinheiro em espécie para pagar.’’ No caso deste crime, trata-se de um latrocínio (roubo seguido de morte) e a pena prevista é de 20 a 30 anos de prisão.
O delegado diz que a polícia está investigando no hotel Gali e o posto de gasolina. Também deve viajar para Palmeira, até a casa de Mig, para interrogá-lo sobre os contatos com Jair. Salmen diz que Mig também poderia ter sido ‘‘iludido’’ pelo falso corretor.

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