Gilson AbreuJosé Balbino Lira com Aparecida na sede da Ouvidoria: ‘Quero colocar meus sete filhos juntos’Uma história de 33 anos de separação terminou com um reencontro emocionado, ontem pela manhã, em Curitiba. O caminhoneiro aposentado José Balbino Lira, de 62 anos, reencontrou a filha Aparecida, que tinha poucos meses de idade quando a família se separou, em 1964. À noite, os dois viajaram juntos para o Rio de Janeiro, onde vivem a ex-mulher, outros três filhos e os nove netos de José Lira.
O encontro da família foi patrocinado pela Ouvidoria Geral do Estado, através do programa ‘‘Quero meus pais’’. Há cinco meses, um dos filhos de Lira assistiu a uma reportagem sobre o programa na TV Educativa do Rio de Janeiro e telefonou para a Ouvidoria. José Lira foi localizado em Franca, no interior de São Paulo, através do cadastro do INSS.
Na semana passada, quando foi ao banco receber a aposentadoria, encontrou o dinheiro bloqueado. Foi no posto do INSS, ao pedir informações sobre o bloqueio, que ele soube da localização dos filhos.
José Lira chegou em Curitiba sexta-feira à noite. Aparecida desembarcou ontem pela manhã. Por volta das 10h30, os dois se reencontraram na sede da Ouvidoria, diante de um batalhão de jornalistas. Choraram, trocaram um longo abraço e pediram para ficar alguns minutos sozinhos.
Depois da conversa, parcialmente refeitos da emoção, os dois demostraram que a alegria pelo reencontro está associada a uma grande preocupação com a dificuldade de reconstruir um relacionamento depois de tantos anos. ‘‘Foi maravilhoso, não poderia ter acontecido nada mais bonito’’, disse José. ‘‘Mas agora vamos passar por um processo muito delicado, que vai exigir muito diálogo.’’
Embora emocionada, a filha também deu espaço para a racionalidade: ‘‘Não posso dizer que amo meu pai, porque nem o conheço direito, mas o importante é que estou aberta a amá-lo e respeitá-lo, assim como ele parece aberto a ser amado’’.
José Lira e a ex-mulher, Maria, se separaram em 1964, quando moravam no ABC paulista. Segundo ele, a mulher deixou a casa com os cinco filhos (um dos quais vive hoje nos Estados Unidos) porque não suportava ficar longe da família, que morava no Rio de Janeiro. Não deixou endereço nem telefone. José disse que chegou a contratar um detetive para investigar o paradeiro da família, sem sucesso. ‘‘Sofri muito esses anos todos, me preocupava com o que poderia acontecer aos meus filhos, mas sempre tive esperança de revê-los’’, disse.
O ex-caminhoneiro tem um casal de filhos, de 23 e 24 anos, de outro casamento, que também acabou. ‘‘Quero colocar meus sete filhos juntos, nem que isso custe o último dia da minha vida.’’
O caso da família Lira é o nono resolvido pelo programa ‘‘Quero meus pais’’, implantado em maio do ano passado. Segundo a coordenadora do programa, Jeane Bandeira Santos, há cerca de 300 casos em estudo. Na tentativa de reunir famílias dispersas, a Ouvidoria conta com a ajuda do INSS, do Tribunal Regional Eleitoral, de cartórios e até emissoras de rádio. O programa atende pelo telefone gratuito (0800) 41-1113.

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