Pai constrói triciclo para garoto com deficiência
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quarta-feira, 09 de outubro de 2002
Renê Muller<br> Reportagem Local 
Claudina de Oliveira Santos diz prazeirosamente que é uma ''mecânica de motos'' aos 74 anos. E junto com o filho Alquetecrino dos Santos, o 'Quino', construiu o triciclo que serviu como condução ao neto Ralf, de 14 anos, até um mês e meio atrás. O garoto, nascido com uma deficiência motora, é conhecido e querido por toda a vizinhança da Rua Araguaia, na Vila Nova. E aposta alto: quer ser locutor de jogos de futebol.
Agora, Ralf já consegue pilotar uma bicicleta comum, com duas rodas. É o que usa para percorrer toda a redondeza, onde o pessoal acompanha a luta do menino desde seu nascimento. Não foi fácil. O parto passou da hora. A oxigenação do cérebro do bebê foi afetada. Ralf foi criado por dona Claudina e pelo pai, o mecânico Quino, 52 anos. ''A luta dos dois foi alguma coisa'', diz o comerciante Roberto Camargo, 32 anos. ''Até cavalo o pai comprou para o tratamento do filho''.
O cavalo foi para uma dos processos pelo qual teve que passar, a equoterapia. Ela desenvolve portadores de deficiência tanto física como psicologicamente. Quino ficou um mês em Curitiba, na Escola Militar, aprendendo a técnica. ''Foi importante'', diz Claudina. Ralf também passou por hidroterapia e por três cirurgias. A luta continua. Toda a semana acontecem sessões com fisioterapeuta. A avó também ajuda. E continuam as visitas à fonoaudióloga.
Essas serão importantes, se Ralf realmente quiser realizar o sonho de ser locutor. A dona Claudina acha difícil. ''É o sonho dele, mas não sei se vai conseguir. Precisa melhorar muito a fala'', ressalta a mecânica. Já o sonho dela é vê-lo prosseguir nos estudos e chegar à universidade. ''Queria que meu filho fosse médico, mas ele virou 'doutor de motos'. Um na família já basta'', brinca a avó.
Uma das características mais lembradas pelos conhecidos é a ausência de supreproteção que Ralf tem em casa. ''Ele vive aí rindo e aprontando com a gente'', diverte-se o mecânico e comissário de menores Ivair Pontes Maciel, 32 anos. E o garoto que se vire pra resolver problemas de adolescente normal. ''Me incomodei na saída da aula'', falou à reportagem da Folha, ainda esbaforido, ao voltar da Escola Estadual Nilo Peçanha. Distâncias menores, o garoto percorre a pé mesmo. Dessa vez, apertou ainda mais o passo. ''Se te incomodaram, tem que incomodar eles também'', aconselha a avó.
Mas a preocupação maior mesmo era mostrar a bicicleta para a reportagem. E até narrar alguns gols do Palmeiras, o time do coração, que começa a melhorar no campeonato. Sorridente, o garoto do triciclo sabe que ultrapassou mais uma fase ao deixar os velhos pedais, que lhe serviram por sete anos, de lado. Agora só resta esperar ir para a oitava série no ano que vem. As notas estão boas. ''Acho que vai dar'', argumenta.


