Lúcio Horta
De Londrina
Até que ponto um aparelho como a incubadora, utilizada para a recuperação de bebês recém-nascidos, pode ser substituída pelo abraço carinhoso dos pais? Para a medicina, esta possibilidade não é só viável como vem sendo utilizada há mais de 10 anos. A resposta é o método ‘‘mãe-canguru’’, quando a criança, em recuperação, fica durante parte do dia presa ao corpo da mãe com faixa e fita crepe. Isso proporciona não só calor (igual ao da incubadora) como também vínculo afetivo intenso e o envolvimento da família com o tratamento da criança.
A novidade, agora, é que não só as mães podem participar do método. Ontem de manhã, foi apresentado o primeiro caso de um ‘‘pai-canguru’’, no Hospital Evangélico de Londrina (HEL). A idéia surgiu quando nasceu Beatriz Moreira Rodrigues, no último dia 11 de dezembro. Filha do representante comercial Paulo Rodrigues, 34 anos, e de Norma Beatriz Capistrano Moreira, 35, a garotinha nasceu prematura, com apenas 34 semanas (6,5 meses) e 1,555 quilo. Depois do nascimento ela perdeu peso e chegou a ficar com 1,4 quilo, necessitando de cuidados intensivos para se recuperar.
‘‘Quando o médico falou desta possibilidade, resolvi participar imediatamente. Mesmo porque a mãe carrega o filho durante tantos meses e, com esta técnica, a gente também tem a oportunidade de participar’’, disse o orgulhoso papai-canguru. Emocionado, ele afirmou que a experiência tem sido reveladora. ‘‘Já percebemos, por exemplo, que enquanto está na incubadora, ela (Beatriz) fica agitada, se mexendo; mas quando está aqui, fica bastante calma’’, disse.
A mãe de Beatriz, Norma – que já passou por outras duas gravidez, sem sucesso – também está orgulhosa. ‘‘É bastante gratificante. E o importante é que ela tem evoluído muito bem. Para nós é o afeto, o calor humano que está ajudando, colaborando com esse resultado’’, afirmou. ‘‘Além disso, é uma oportunidade para a gente curtir mais o bebê. Assim ele não fica só na incubadora’’, acrescentou. A expectativa é que a filha tenha alta em 12 dias.
O médico Marcus Vinicius Gomes da Cunha, pediatra e neonatologista (especialista em recém-nascido) responsável pela implantação do método no HEL, explicou que não há diferença entre a ‘‘mãe-canguru’’ e o ‘‘pai-canguru’’ – exceto pelo fato de que, no segundo caso, não existe amamentação. Além disso, o pai geralmente fica com a criança junto ao corpo por cerca de duas horas, enquanto a mãe pode ficar de quatro até oito horas.
Ainda segundo ele, as condições ideais para uma criança participar do pai-canguru ou mãe-canguru é ter entre 1,4 quilos e 1,8 quilos. Abaixo disso, o ideal seria a utilização da incubadora. Marcus Vinicius lembrou que, em Londrina, a técnica do pai-canguru foi utilizada pela primeira vez no Hospital Universitário (HU).
O médico também informou que o método mãe-canguru surgiu há cerca de 10 anos, no México, durante um dos mais graves terremotos que ocorreu naquele país. Os tremores de terra atingiram hospitais e destruíram incubadoras, obrigando os médicos a improvisarem. A solução de emergência, para os casos de recém-nascidos, foi justamente enfaixar o bebê junto ao corpo da mãe.
A técnica deu tão certo – pela possibilidade de estreitar o vínculo afetivo com a mãe – que acabou se espalhando pelo mundo todo. O médico disse que não há um estudo que comprove que a recuperação da criança é mais rápida, quando fica junto ao corpo dos pais. ‘‘Mas presume-se que sim. Porque dá afeto e deixa a família mais próxima do bebê.’’Método utilizado há 10 anos em mulheres é adaptado para os homens. Pai carrega filha prematura colada e enfaixada ao corpo
Dorico da SilvaEXPERIÊNCIA GRATIFICANTERepresentante comercial Paulo Rodrigues, com a filha Beatriz Moreira, que nasceu, colada com fita crepe e enfaixada ao seu corpo: ‘‘Já percebemos, por exemplo, que enquanto está na incubadora, ela (Beatriz) fica agitada, se mexendo; mas quando está aqui, fica bastante calma’’Dorico da SilvaPaulo Rodrigues e a esposa Norma Beatriz (ao centro) recebem orientações sobre o método da mãe-canguru de uma enfermeira do hospital

mockup