Padres 'especialistas' cativam fiéis
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sábado, 21 de fevereiro de 2009
Erica Shimamura<br> Reportagem Local 
Se fosse somente pela aparência, ninguém diria que o homem de chapéu, calça jeans, camisa de manga longa de algodão e botas, celebra missas desde 1994. Padre José Pedro da Silva, também chamado de ''padre peão'', decidiu mudar radicalmente o estilo de vida quando ingressou no seminário, depois de ter passado parte de sua vida em arenas de rodeios e construído uma carreira como peão profissional. Assim como padre Pedro, há outros casos de párocos que acabaram se transformando ''especialistas'' em celebrar missas e outros ritos religiosos para comunidades que apresentam características bastante específicas, atingindo determinado público com mais empatia.
É o caso também do padre José Onero, 39 anos, que uma vez por mês reza missa em uma capela católica, com espaço para 350 pessoas, construída dentro da reserva indígena caingangue Apucaraninha, em Tamarana (Norte). Segundo o padre, a capela foi erguida em 2002, no ano em que a campanha da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) teve como tema ''Fraternidade e Povos Indígenas''. O padre revela que a iniciativa de construir a capela partiu da própria comunidade. ''Eles procuraram os padres, pois queriam a presença da Igreja na aldeia. A comunidade da reserva tem muito respeito pela religião''.
Mas nem tudo são flores no trabalho nas aldeias. De acordo com padre Onero, é preciso antes de tudo entender as diferenças culturais. Os horários, por exemplo, nem sempre são seguidos à risca. Além das missas, o pároco visita a reserva mensalmente para conversar com a população e incentivá-la na vida social em Tamarana. Há também a catequese aos sábados para 40 crianças, ministrada por duas catequistas.
O encontro de crianças e idosos com padres e catequistas também precisa de mediação dos jovens indígenas, capazes de entender o português e a língua nativa. São eles os responsáveis pela tradução nesses eventos. Os batizados e casamentos, segundo o padre, são celebrados normalmente, com exceção dos cânticos, que são entoados na língua caingangue.
A aproximação do padre Onero com os povos indígenas aconteceu há três anos, depois de alguns anos na vida sacerdotal, quando foi transferido para a Paróquia São Roque, em Tamarana. Nos últimos dois anos, o religioso se envolveu no projeto das aldeias.
Já no caso do padre Pedro, a ligação com o mundo das arenas e rodeios dificilmente poderia ser rompida. Sua formação como peão começou aos 14 anos de idade, acumulando em seu currículo apresentações em rodeios no final da década de 1970, em Santa Cecília do Pavão (Norte). ''A idéia de participar surgiu depois de entrar no seminário, como forma de angariar recursos para a paróquia e alegrar o evento. E o primeiro rodeio aconteceu em Rancho Alegre (Norte)'', conta.
O padre lembra que ele foi o primeiro no País nessa modalidade. ''Abri as portas para os outros. Agora existem muitos padres peões'', conta. Hoje, ele trabalha na paróquia de Santo Antônio do Paraíso (Norte), mas viaja de oito a 10 vezes ao ano para abençoar os peões em rodeios, cavalgadas e nas atividades agrícolas. Para o padre, é muito importante valorizar a relação do homem com os animais e a natureza, pois esse vínculo faz com o indivíduo se encontre consigo mesmo.


